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Trabalhei com Alexei Bueno, absolutamente poeta, uma lenda, eu ainda estagiário. Isso ali pelo início do século XXI. Seriam dois anos, talvez três, de convivência. Pouco tempo. Muita influência. Quando falo em poeta absolutamente, me refiro também ao comportamento, à atitude - àquilo que comporia o imaginário do jovem editor/jornalista em formação. Talvez, para o seu chefe, fosse insuportável. Imprevisível. Incontrolável. Era. Para mim, diversão e arte. Alexei estará entre as pessoas mais cultas que conheci - naquela altura, jovem ainda, já autor de uma obra, com filiações claras. Teria lido tudo. Morava na Lapa, num apartamento imenso - e tinha uma coleção de livros inesquecível. Uma bagunça formidável, indomável. Ele não teria 40 anos - e me lembro de ouvi-lo sobre o peso de ter sido considerado poeta prodígio, o talento promissor, aquele sobre quem se projetam as expectativas. “Sou uma irrealização” - nunca me esqueci. Estava ali um brigão apaixonado, não raro infantil, angustiado, triste e romântico, sujeito de um tempo muito específico, jamais o presente, indivíduo dado ao choro fácil, ao discurso inflamado e gesticulado, a defender furiosamente os seus amores, donde propenso à inclemência contra os desafetos, homem de explosões, de excessos, de reações impulsivas; como quando, tendo acabado de receber o salário, desapareceu por algumas horas, para ressurgir - generoso como fazem as doses - com um baita bloco de foie gras e uma garrafaça de vinho, partilha com a qual encerrava o expediente, o meu também, não importasse a hora e o que houvesse a entregar. Era uma festa, embora pudesse virar tempestade em segundos. Para que não haja dúvidas: o caótico genial tinha rara capacidade de trabalho e produzia - escrevia, organizava e traduzia livros - industrialmente. Ele então acabara de publicar um livrinho arrebatador, “Os resistentes”, que li maravilhado - poema longo e visceral. Violento. Bruto. Um poema rebelado da estirpe daqueles que - segundo Ferreira Gullar na apresentação - “explodem detonados por um impulso desmistificador ou denunciador de valores aceitos, que ameaçam a essência mesma do ser humano, que o nivelam por baixo e impõe a banalização como medida universal.” Tenho até hoje o exemplar, como guardo também o de “The Waste Land” - “você tem que ler Eliot!”, me disse ao me dar o volume. Não sei quando terei visto Alexei pela última vez. Fará muitos anos. Hoje li que nos deixou. Deixo aqui esta homenagem.

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