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DOUTORADO! Foi um gesto simples, que parecia não refletir a complexidade dos últimos anos. Aproximei a mão do velho laptop, na sala de casa, apertei com força o botão e ... pluft. A tese de doutorado estava entregue, por via eletrônica. Tão diferente da experiência do mestrado, oito anos atrás, quando a entrega ainda era no papel, e eu caminhei com aquela caixa nos braços contendo seis cópias da dissertação – como se fosse um filho –, para “depositar” tudo na secretaria da universidade. Dessa vez, o “depósito” deu-se via PDF. “Lanças e fuzis: a guerrilha em busca da nação – luta armada e disputa pelos símbolos nacionais na América Latina, nos anos 1960/1970 (a trajetória do MLN-T no Uruguai e do PRT-ERP na Argentina)”. Trata-se de estudo sobre a esquerda e o nacionalismo, com foco na região do Prata, realizado no programa de História Social da USP – sob orientação inicial de Maria Helena Capelato, e depois de Sttela Maris Scatena Franco. Agradeço às duas professoras, fundamentais na condução do trabalho. Trezentas páginas, mais de 500 notas de rodapé e uma quantidade de leituras e reflexões que tenho até dificuldade para dimensionar. Sem falar nas viagens para Montevidéu, Buenos Aires, Rosário e Santiago del Estero. Olho para os livros e documentos ainda amontoados sobre a mesa, e chego a duvidar que fui eu mesmo que li, pesquisei e escrevi tanta coisa. O que me ocorre nessa hora é apenas agradecer, porque não foi um trajeto simples. E não seria possível sem a ajuda de muita gente. À família, aos amigos mais próximos, aos colegas de jornalismo, e ao pessoal da academia: sou grato demais a toda essa turma! Muitos estão citados, nominalmente, na abertura da tese. Faço questão de agradecer mais uma vez, e agora publicamente, à professora emérita da USP, a quem dedico a tese: Maria Ligia Coelho Prado. Agradeço também a muita gente que não conheço pessoalmente, mas que torceu por mim nesses últimos meses em que tornei público, nas redes e nas transmissões de internet, o esforço final para concluir o doutorado. Para isso, me afastei das atividades jornalísticas (que retomarei em breve). Deu certo até aqui. Mas falta ainda etapa decisiva: a defesa, com banca marcada para a segunda quinzena de novembro. A tese levou tempo demais para ficar pronta porque no meio do caminho o Brasil e o mundo viveram fase complicada: um golpe de Estado em 2016; turbulências políticas, que para mim se traduziram em mudanças profissionais profundas, e que me obrigaram a trancar a pesquisa por um ano; um governo extremista; e uma pandemia terrível, que estendeu prazos por mais dois anos, dada a impossibilidade de realizar visitas aos arquivos fora do Brasil. Mas o trabalho foi retomado em 2022 e termina agora de forma que julgo consistente. Espero que o doutorado de alguma forma contribua para o debate sobre tema que, desde muito jovem, considero fundamental: o papel do Estado nacional em países da periferia do sistema capitalista. No pós-ditadura, deu-se pouca atenção no Brasil a esse assunto, que parecia “fora de moda”. Erro brutal. O Golpe de 2016, de certa forma, passa por essa questão. No doutorado, busquei refletir sobre isso, a partir de dois estudos de caso: o MLN-Tupamaros no Uruguai e o PRT-ERP na Argentina, duas organizações guerrilheiras de esquerda que lançaram mão de símbolos e heróis nacionais do passado, para legitimar suas ações. É preciso estudar o nacionalismo, de forma crítica, sem mistificações, mas também sem entregar os pontos a uma visão liberal (seja de esquerda ou de direita). Nação e nacionalismo são temas fundamentais do mundo contemporâneo – até para entender a nova onda de extrema-direita. Por outro lado, sem nação e sem Estado nacional não há caminho possível na superação de desigualdades e injustiças de toda ordem. Mas já escrevi demais. Esse texto não vai virar uma segunda tese. O que queria mesmo é dizer: obrigado! E ponto final.

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