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Falei da política editorial desonesta de Adorno com Benjamin e me lembrei desse texto, o capítulo do livro de Merquior sobre Frankfurt que trata dele, obviamente excelente, erudito e elegante como tudo de Merquior. À certa altura, ele fala da tentativa de intoxicar o socialismo com a chama do pensamento místico reacionário, que Benjamin levava a cabo pelo roubo (que Adorno queria sub-reptício!) do fogo do outro lado da barricada, o de Jung, de Carl Schmitt, do círculo de George. Eu acredito que em larga medida Benjamin foi bem sucedido nisso, embora ainda seja necessário aguardar pacientemente o Apocalipse. O anjo da História ainda irá abrir as suas asas, terríveis. Mas antes desse episódio momentoso, se pensarmos bem o que Benjamin conseguiu foi ajudar, junto com Marcuse, outro pontífice dessa nova igreja do pensamento social, a transformar a cultura espiritual das esquerdas, que passou de um materialismo rígido para um romantismo natural, que aparece aqui como uma abertura mística para o sagrado de povos contra-hegemônicos como os indígenas brasileiros. Intelectualmente, uma das fontes sofisticadas que abriu tais possibilidades de introjeção do sagrado no socialismo é o legado de Benjamin, mais vivo e forte do que o de Bloch e também mais “experimental”. Ao lado da antropologia e da contracultura americana injetada de Marcuse, ele forma a sensibilidade teórico-religiosa de uma parcela significativa do socialismo brasileiro.

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