Thread

Olavo insistia muito na necessidade de aquisição de cultura. Não acho que a maior parte de seus alunos lhe foi fiel e os que lhe foram mais ou menos fiéis quase sempre resvalaram para uma atitude fetichista diante desse conselho. Dito isto, a cultura parece mesmo mais importante, sob certos aspectos, do que o QI. QI alto ajuda muito, é um medidor razoavelmente confiável da capacidade de um órgão, mas a mente aculturada tem vantagens importantes sobre a mente inteligente ignorante. Através da aculturação, o indivíduo pode se situar no mundo; ele evitará, por exemplo, quase todo o conjunto de crenças que é fruto do modismo da massa (esse elemento novo nas sociedades, que aparece do século XX pra cá) e se ele estiver afinado com alguma tendência da atualidade esse alinhamento acontecerá com maior profundidade do que o habitual. A mente aculturada se torna mais crítica, as conexões que ela avista são outras e também é muito mais frequente o pensamento original. A mente acultura termina sendo sempre um pouco mais interessante. Consequentemente, os indivíduos se tornam mais interessantes e são capazes de pensar e falar de maneira mais rica sobre muitas coisas mesmo quando tem um talento mais limitado. Ao contrário do que acontecia com as elites falantes até o século XIX, cujos indivíduos eram todos cultos, e faziam um contraste com o populacho analfabeto (a imensa maioria da população), hoje em dia a educação básica se universalizou entre as massas, mas os segmentos sociais falantes, quem opina e quer ser ouvido, não tem cultura. Até o dinheiro se divorciou da boa formação. Escolas ditas de elite não são espaços de cultivo apropriado; o currículo padronizado “politécnico” e a necessidade de formação profissional faz com que se dê pouco peso na aculturação através dos assim chamados “clássicos” (há muito fetiche com isso na direita que, no entanto, não chega a lugar algum), do questionamento reflexivo continuado e da aquisição de sensibilidade artística. No final, o resultado desse processo é o que conseguimos ver com clareza: um ruído enorme provocado pela quantidade de opiniões superficiais que são despejadas sobre tudo. Esse ruído cresceu muito graças ao fato de que essas opiniões são agora expressas o tempo todo. Há meios virtuais, como o próprio Twitter, para todo mundo abrir sua cabeça e falar e falar e falar… As mentes superficiais são muitas e seu volume maciço afeta o funcionamento da sociedade em todos os níveis: a democracia política tem sofrido particularmente com o fenômeno. A era da mobilização passou, mas não a da tagarelice política. Até onde apreendo a situação, não vejo nenhuma solução viável para esse problema, apenas o seu aprofundamento. E o enfraquecimento da opinião pública nas últimas décadas, sob certos aspectos, é ele mesmo outro problema, já que ocorre por razões que indicam novos problemas, e não soluções.

Nenhum Voo ainda