Quando o jornalismo não pergunta, o absurdo vira proposta
Eu não sei se isso acontece por desconhecimento ou porque a segurança pública ainda ocupa um lugar muito distante do debate público qualificado. O fato é que esse vazio acaba preenchido pelo discurso fácil, pelas soluções mágicas e pelas bravatas eleitorais.
A segurança pública precisa respirar democratização. Precisa ser compreendida como sistema e conduzida como política de Estado, acima das disputas ideológicas de ocasião. A violência atravessa classes sociais, regiões e fronteiras. Ela já se internacionalizou. Portanto, não cabe em slogans nem pode ser enfrentada por meio de promessas improvisadas.
Por isso, impressiona a dificuldade do jornalismo profissional, comercial e tradicional de interpelar minimamente os candidatos quando eles apresentam propostas absurdas. Um candidato defende que a polícia mate pessoas ou promete criar uma nova força policial, mas ninguém pergunta: como isso será feito dentro da Constituição? Será necessária uma emenda constitucional? Como ficam o devido processo legal e o Código de Processo Penal? Qual será o papel do Ministério Público, do Judiciário e das cortes superiores? Quem vai comandar, fiscalizar, financiar e responsabilizar essa nova polícia?
Quase nunca há questionamento, contraditório ou análise das consequências institucionais daquilo que está sendo prometido. Com isso, propostas incompatíveis com a democracia vão passando como se fossem possíveis, razoáveis e até comuns.
E o mais impressionante é que, muitas vezes, não seria necessária uma aula inteira sobre segurança pública para desmontar essas soluções mágicas. Bastaria o jornalismo cumprir sua tarefa mais elementar: fazer a pergunta seguinte.
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