Na lápide do rapaz que protagonizou Pixote, nas telas do mundo inteiro, uma contradição triste: Fernando Ramos da Silva conheceu cedo o reconhecimento, mas não teve a mesma oportunidade de conhecer de forma plena, as letras. Pelo filme que o tornou conhecido conseguindo comprar só uma casa na periferia. A fama chegou rápido, mas o sistema tão brutal não o permitiu mudar d vida.
Fernando ainda teve outras chances como ator, inclusive na televisão mas a dificuldade em ler e e compreender os roteiros fez as portas se fecharem. O rapaz que havia impressionado o cinema acabou novamente entregue à realidade dura da qual por algum tempo, a arte pareceu resgatá-lo.
Sua trajetória terminou de forma brutal. Envolvido com a criminalidade, Fernando foi morto pela polícia aos 19 anos. É impossível olhar para sua história sem pensar no peso da desigualdade e no quanto a ausência de uma educação efetiva pode limitar destinos. Não se trata de afirmar que o analfabetismo, sozinho, determinou suas escolhas, mas de reconhecer que ele lhe retirou ferramentas essenciais justamente quando surgiram oportunidades para construir outro caminho.
E existe um detalhe ainda mais doloroso: até em sua lápide, onde deveria permanecer apenas a memória do jovem que encantou o cinema, os erros de escrita parecem destacar a exclusão que perpassou sua curta existência. Fernando aprendeu a interpretar diante das câmeras antes de ter a oportunidade de dominar as palavras no papel. O mundo conheceu Pixote. Fernando, porém, não teve tempo nem condições de conhecer todas as possibilidades que o mundo poderia ter lhe oferecido.
Thread
Nenhum Voo ainda