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Gosto da segurança que ele tem em mim para atravessarmos a rua quase todos os dias em que o meu café e o dele coincidem no boteco da esquina. Ele não sabe do efeito terapêutico que esse pedido me causa. Sou um homem lotado de traumas. Alguns que vivi, outros que me foram depositados como possibilidade. A possibilidade de ser lido como um homem violento. Visto, identificado, taxado como perigoso. Alguém que, andando por aí em posse de uma bicicleta, por exemplo, pode ser espancado e chamado de ladrão. Não sou perfeito, nem santo. Mas a minha raiva, do mundo ou de mim mesmo, eu trato na terapia, no spinning, puxando ferro, comendo hambúrguer. Ainda assim, sou um homem negro, de 100 kg, 1,85 m, dreads longos e braços tatuados. Um corpo que, durante a vida inteira, muita gente aprendeu a temer… embora muita gente também tenha aprendido a admirar. Por isso, quando ele me olha e pergunta, como hoje, “vamos lá?”, eu me sinto um anjo. Alguém que ele olha como suporte. Mas, melhor ainda, alguém que pode protegê-lo. Queria que fosse só sobre atravessar a rua. Mas não é. Boa tarde.

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