O que sobra para o povo honesto do Amapá?
Eu os estou enviando como ovelhas no meio de lobos. Portanto, sejam astutos como as serpentes e sem malícia como as pombas. — Mateus 10:16
Imagine o leitor a situação do amapaense honesto.
De um lado, o grupo político de Davi Alcolumbre, que dispensa apresentações: INSS, Master, Beto Louco; os escândalos se alternam, mas Davi não. Continua o mesmo. O homem que já foi tenente do Sarney no Amapá e passou a perna na raposa do Maranhão. Astuto como ninguém. Sempre lá, mas nunca como culpado.
Do outro, o grupo político da família Furlan. O ex-prefeito de Macapá lidera as pesquisas para o governo do estado. Acima dos 60%. 38 pontos de vantagem sobre o atual governador, um aliado de Alcolumbre. No Senado, sua irmã está na frente com larga vantagem.
A despeito de sua popularidade, Furlan é alvo de uma série de investigações. Em março, a PF bateu na sua porta com autorização do Flávio Dino. A decisão também o afastou da prefeitura de Macapá. Dentre as provas, a PF seguiu e fotografou o empreiteiro vencedor da licitação de hospital, sacando dinheiro em espécie, colocando-o numa mochila e levando-a até um ponto de encontro, onde a mochila foi embora num carro em nome do Doutor.
Diante disso. Te pergunto: o que faz o amapaense honesto? Anula o voto? Muda de estado?
Ou simplesmente vota no Dr. Furlan e na sua irmã para o Senado?
Há algum tempo, se instalou, em parte da classe média urbana brasileira, a ideia de que não existe um menos pior. São todos iguais. É uma ideologia triunfante na demografia formada por aqueles com curso superior e que vivem nas grandes cidades. Magnânimos: recusam-se a tomar decisões.
No Amapá, devem estar concentrados em Macapá. E, agora, aposto que pretendem anular o seu voto. Afinal, a PF parece ter um caso bem forte. É minha opinião, mas imagino que o leitor deva concordar. Pegaram o Furlan com a boca na botija. Qual a diferença para o Davi Alcolumbre?
Eu lhes respondo: imensa. E é imensa para qualquer um que ache estranho,
— que o Dr. Furlan seja o único prefeito entre as 27 capitais em que há uma investigação sobre o uso de emendas parlamentares;
— que uma investigação sobre emendas parlamentares não tenha nenhum parlamentar como investigado;
— que o Dr. Furlan tenha sido o caso raro de político afastado do cargo durante a investigação;
— que a celeridade e energia empregadas nessas investigações pareçam diferentes do comum;
— que Davi Alcolumbre consiga ter seu nome citado em todos os grandes escândalos da república e nunca tenha visto a PF na sua porta.
Ou simplesmente seja capaz de perceber que os esquemas em que Alcolumbre é citado rodam na casa dos bilhões de reais, que o Beto Louco tem conexões com facções criminosas, que até em contrabando de combustível o nome do Alcolumbre já apareceu, e que seus tentáculos hoje alcançam até a CBF.
O beneficiário da recusa em hierarquizar o mal é o mal maior. A apatia cínica é serviço prestado ao que há de pior. A recusa em agir não trará mais prosperidade nem bem-estar aos amapenses. Apenas continuaria servindo aos métodos que Alcolumbre aprendeu com Sarney.
Esta posição, doravante denominada "nulismo", é comumente defendida como um exemplo de retidão.
Uma espécie de teoria moral baseada nos ensinamentos de Dona Florinda, que exortava o seu amado filho a "não se misturar com essa gentalha". O excesso de zelo, entretanto, como bem pontuou o Papa Francisco, "em certas situações, pode provocar desastres: pode arruinar uma construção que teria exigido gradualismo; pode gerar conflitos e mal-entendidos; pode até desencadear a violência." Porque, numa situação como esta, o que cabe ao homem reto não é lavar as mãos, mas "governar as ações a fim de as orientar para o bem".
Eu não tenho dúvidas de que o amapaense honesto preferiria um político sem escândalos associados ao seu nome. Eu também. Quem não? Talvez só os atuais políticos. O fato é que esta opção parece não existir no Amapá. E o resultado efetivo do nulismo é garantir que Davi Alcolumbre continue acumulando poder.
Quando um eleitor enfrenta a escolha entre um candidato ruim e outro pior, e vota no ruim para evitar o pior, ele não está cooperando com o mal. Está o limitando. Um governo do Dr. Furlan que retire poder do Alcolumbre cria uma realidade institucional e política diferente. Uma capaz de gerar possibilidades diferentes. Ao amapense honesto, escolher o bem parece ser impossível, mas escolher as condições que permitirão a existência do bem está ao seu alcance.
É triste que a situação do Amapá pareça refletir o que vivemos no Brasil.
O próximo presidente da República indicará quatro ministros para a Suprema Corte, que hoje mantém o país em um verdadeiro regime de exceção, no qual o estado de direito foi abolido por seus integrantes. E abundam defensores do nulismo prontos para entregar estes e outros poderes ao partido que montou o maior esquema de corrupção da história do continente e passou os últimos quatro anos aumentando impostos e tentando censurar o campo político adversário.
O que sobra para o brasileiro honesto é o mesmo que sobra para o amapaense: ser astuto como as serpentes e sem malícia como as pombas.
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