Matéria importantíssima da Gazeta do Povo que aponta um elemento pouco discutido da nossa crise: o silêncio da classe jurídica diante do elefante na sala.
Um silêncio especialmente pernicioso pela natureza da crise, que acontece sob o véu do direito. Ou seja, para entender o que está acontecendo, você precisa ter conhecimento técnico.
Aí fica assim: as pessoas dispostas a denunciar o que estão acontecendo nem sempre podem, porque não têm o conhecimento técnico; e as pessoas que têm o conhecimento técnico se calam, porque, justamente por serem da área, têm medo de comprometer a carreira ou algo do tipo. É a armadilha perfeita.
Uma vez eu vi um tweet em que alguém argumentava: “Não dá pra botar fé que realmente esteja acontecendo coisa errada, porque eu não vejo nenhum entendido falar isso. Só quem fala isso é quem é de fora da área do direito, então deve ser mentira.”
Pois é.
Os entendidos estão majoritariamente em silêncio, e a matéria é brilhante porque aponta todos os motivos muito diversos pelos quais as pessoas acabam se calando: medo, priorização da carreira, vaidade e, na pior das hipóteses, cumplicidade.
Como o chamado não é atendido por quem deveria, sobra pra sociedade se defender como pode. Ironicamente, sobrou até pra um partido comunista revolucionário a tarefa de defender as instituições enquanto quem diz defender as instituições se cala ou aplaude. (Lembrando que “instituições” ≠ órgãos públicos; nesse momento, defender as instituições significa criticar órgãos públicos.)
A sociedade se defende como pode, mas não existe substituto para a manifestação dos especialistas.
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