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Eduardo Affonso o arquiteto e cronista neste sábado com ironia e coragem toca na atual grave e grande crise política e institucional que tem como fulcro estrepolias vergonhosas de ministros do nosso STF. Minha mãe para o STF Como ela não era sócia da Light, adeus mordomias. Lagosta, lenços de seda? Os pedidos seriam indeferidos Reputação ilibada: ok. Notável saber jurídico: ok. Ser brasileira nata: ok. Ter mais de 35 e menos de 70 anos de idade: aí a porca torce o rabo. Minha mãe teria 96, não tivesse morrido em 2022 — e, para pleitear uma cadeira no STF, a pessoa tem de ser viva. Muito viva. Tirando esse detalhe — e o diabo mora no quartinho dos fundos do detalhe —, D. Conceição seria perfeita não só no STF como na sua presidência, Currículo não lhe faltava. Teve neste momento, o primeiro filho (eu) com um secundarista, o segundo com um vestibulando, o terceiro com um acadêmico de Direito, o quarto com um advogado e o quinto com um juiz. Morreu viúva de desembargador. Além de experiência em lidar com turma de cinco gênios inconciliáveis, acompanhou — desde os prolegômenos — todos os estágios da carreira do meu pai na advocacia e na magistratura. E nunca teve, nem com os filhos nem com o marido, uma única sentença reformada: o que ela decidia estava transitado em julgado. Formou-se advogada aos 56 anos — decana da turma. Sabia de cor a prática muito antes de ser apresentada à teoria. Talvez por isso sua sabedoria jurídica fosse expressa sem latinório. Ad hoc e jus sperniandi viriam acompanhados da versão caseira: quem não tem cão caça com gato, quem não chora não mama. Sine die seria riscada e substituída por “quando galinha tiver dente”. Não haveria essa de res judicata, mas “agora Inês é morta” — ou o ainda mais definitivo “tarde piaste, juriti”.Nos seus dois anos de mandato, estabeleceria algumas cláusulas pétreas. Constituição não é jirau de pancada. Para quem é ministro, bacalhau (no caso, a lei) basta — e os santos do pau oco podem tirar o cavalinho da chuva. Quem pariu Mateus que o embale. Abriu um inquérito? Feche. Denunciou o colega? Prove. Fez birra? Vai ajoelhar no milho: seis meses sem ir a Lisboa, um ano sem dar entrevista. E nada de corporativismo: galinha que acompanha pato morre afogada.Como não era sócia da Light, adeus mordomias, privilégios, penduricalhos. Lagosta, lenços de seda? Os pedidos seriam indeferidos com um “nem que a vaca tussa”. Não esperaria o fuzuê virar um tendepá de cuia para só então botar ordem no terreiro. No primeiro quiproquó, teria enquadrado os litigantes com um “quem vai na garupa não segura a rédea” — e se dirigiria ao gabinete com os processos (agora sob sua relatoria) embaixo do braço. Sim, ela também dispensaria os “capinhas”. Criada na roça, acostumada à enxada, tinha braços de estivador e não precisava de acólitos (outro corte de gastos: é que, além de Direito, minha mãe tinha feito também economia doméstica, ciência de primeiríssima necessidade no Judiciário).Mas há um precedente que me faz não ter ilusões de que sua gestão viesse a ser impecável. Um dos meus irmãos era da pá virada: se achava o degas, criava caso com tudo, me infernizava a vida — e, claro, me batia. Às vezes eu apanhava calado, às vezes revidava. Para não ter de investigar quem começou ou quem era o culpado (ainda que disso não houvesse dúvida...), minha mãe dava uma surra nos dois.Pois é, D. Conceição nem sempre era justa. Mas bater indistintamente em quem agiu e em quem reagiu a fazia sentir-se salomônica. Nesse aspecto (e só nesse aspecto), não faria muita diferença ela estar hoje na presidência do STF.
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