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Guga Chacra Colunista do Globo e comentarista de política internacional da Globonews. O atentado de 7 de Outubro na memória de judeus brasileiros Newsletter de Guga Chacra traz relatos de brasileiros sobre como viveram o dia em que o Hamas atacou Israel Terroristas do Hamas mataram 1.200 pessoas em Israel e sequestraram outras 250 no dia 7 de outubro de 2023. A data transformou-se numa das mais trágicas não apenas para os israelenses mas também para a comunidade judaica de todo o planeta. Para marcar os três anos do ataque, pedi a alguns integrantes da comunidade judaica brasileira que dessem um depoimento sobre o que foi aquele dia. Recomendo muito a leitura. Marília Neustein – Diretora-executiva do Museu Judaico No dia 7 de outubro de 2023, eu tinha acabado de chegar de viagem com minha família em outro país. Minha filha mais nova ainda era bebê, de um ano. Voo longo, fuso enorme, o corpo vivendo em outro horário. Deitei para dormir e, por reflexo, abri o Twitter. As primeiras imagens estavam lá. O sono, que parecia certo, foi embora e não voltou. Passei a noite de olhos abertos, ao lado da minha família, com a certeza de que o mundo não seria mais o mesmo. Era o domínio do horror sendo transmitido ao vivo. Três anos depois, podemos dizer que o 7 de Outubro foi um portal para um mundo pior em muitos sentidos: mais furioso, mais fundamentalista e mais ferido. Um mundo em que o luto é uma disputa, como se a dor tivesse dono. Um mundo no qual muitas mães não dormem: as que perderam os filhos naquele dia e as que seguem perdendo, vivendo uma guerra que não escolheram. A escritora bielorrussa Svetlana Aleksiévitch, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura, escreveu que a guerra contada pelas mulheres não tem heróis nem façanhas, só gente ocupada com “uma tarefa desumanamente humana”. Vigiar o sono de suas filhas enquanto o mundo desaba é uma tarefa assim. Um dia elas vão me perguntar onde eu estava, e vou dizer que estava acordada. Ruth Goldberg – Ex-presidente do Instituto Brasil-Israel e diretora do Instituto FHC Tinha estado em Israel um mês antes (voltei ao Brasil no dia 7 de setembro daquele ano). Atmosfera de verão, dias muito quentes, muita gente nas ruas, nas praias em Tel Aviv, uma composição multigeracional, uma variedade de nacionalidades, línguas, fenótipos, corpos lindos, de todas as tonalidades desfilando pelas calçadas de dia e de noite. A presença do passado em harmonia com a contemporaneidade marcava as molduras em todos os lugares por onde passava. De Tzfat (cidade de origem de minha família materna) a Haifa, Jerusalém, deserto do Neguev, Tel Aviv. Uma sensação deliciosa de segurança, liberdade, paz e harmonia. Um país que mergulhava na prosperidade, pujança, desenvolvimento. E ao mesmo tempo, um país que não escondia os seus problemas e desafios. O cotidiano submerso que ainda acomodava tensão, medo, um paradoxo e incertezas sobre o futuro. A notícia do 7 de Outubro foi, para mim, brutalmente avassaladora. Vivi uma negação total, uma sensação de que tudo fazia parte de uma ficção, de um fenômeno que jamais poderia estar acontecendo. Não conseguia compreender a vulnerabilidade e a impotência das pessoas, o fracasso das forças de defesa, pensava nas famílias, crianças, bebês e idosos que estavam em suas casas acordando, nos jovens na estrada voltando da festa. E naquelas pessoas que estavam tentando se esconder. Era algo inacreditável. Enlouquecedor. Incredulidade e desesperança na humanidade eram os maiores sentimentos naquela hora. Acompanhar tudo ao vivo, pelas mensagens e filmes de celulares, sabendo que ainda havia “monstros” dentro das próprias casas, vilas, esconderijos, e muitas pessoas tentando, mas não conseguindo evitar que a tragédia fosse ainda maior, era aterrorizador. Como todos, pensava nos meus amigos, nos meus familiares, nas pessoas (de lá e de cá) que dedicavam suas vidas a construir um mundo melhor. A dor pela traição e a impotência, depois de certo tempo, foram aos poucos sendo trocadas pelo desejo de ajudar, aliviar, acolher e informar para o mundo o que aquilo significava. Todos os povos minoritários sabem onde pode chegar a intolerância e o fanatismo. Os judeus, há séculos, continuam sentindo isto na pele. Não parecia possível que no século XXI viveríamos algo assim novamente. A barbárie e o terrorismo continuavam sendo utilizados como forma de resolver conflitos. Uma vergonha para todos nós. Na ocasião, eu era presidente do Instituto Brasil-Israel e tinha a responsabilidade e o desejo de compreender tudo o que estava acontecendo, acolher as angústias e medos e promover saídas construtivas para que o sonho de futuro não desmoronasse. O IBI vinha cobrindo com bastante profundidade as crises internas em Israel. Assim como em todo o mundo, as preocupações eram com os riscos à democracia, os papéis e responsabilidades das instâncias de poder e as questões humanitárias. Falávamos das preocupações em relação ao Líbano, ao Irã e Cisjordânia. Mas pouco falávamos sobre Gaza. Existia um silêncio. Uma negação. Uma “acomodação”? Enfim, o IBI segue fazendo o seu papel com maestria. E eu, uma ativista pelos direitos humanos e pela democracia, sigo com uma imensa dor no coração pelo que aconteceu, pelo sofrimento e pelas consequências geradas aos israelenses, aos judeus de todo mundo, aos palestinos e a todos os povos que entendem que somente o diálogo e a diplomacia serão capazes de trazer uma solução possível para os conflitos. Não ao terrorismo! Rabino Michel Schlesinger Três anos atrás, a manhã de 7 de outubro foi um feriado judaico. Nos dias de celebração religiosa, não costumo usar meu celular. De todo modo, deixo o aparelho ligado para que, em caso de emergência, as pessoas possam entrar em contato comigo. Naquela manhã, vi que o telefone estava recebendo muitas mensagens. Percebi que algo fora do comum estava acontecendo. Destravei meu telefone e comecei a ler as notícias que vinham de Israel. Os relatos eram ainda preliminares e confusos, mas algo estava claro: a população civil de Israel estava sendo brutalmente atacada por terroristas do Hamas que haviam atravessado de Gaza e se infiltrado nas comunidades próximas. Além disso, chegavam as primeiras histórias sobre o festival Nova — uma festa repleta de jovens que se transformara num massacre brutal. Imediatamente entrei em contato com a liderança da minha sinagoga porque tínhamos que tomar uma decisão rápida. Naquela mesma noite haveria a celebração de Simchat Torá e precisávamos decidir se mantínhamos ou não o evento. Simchat Torá — literalmente “a alegria da Torá” — marca o fim do ciclo anual de leitura pública do Pentateuco e seu reinício imediato: leem-se os últimos versículos de Deuteronômio e, ato contínuo, os primeiros de Gênesis, com a melodia tradicional. A mensagem é que não há intervalo entre os ciclos — a palavra segue relevante. Havíamos contratado uma banda para animar a celebração. Decidimos cancelar a música: não havia clima para festa. A cerimônia foi mantida, mas em tom muito mais solene. Para nossa surpresa, centenas de pessoas vieram — buscavam estar com a comunidade e digerir, juntas, o impacto daqueles ataques terríveis. Os meses seguintes foram muito difíceis para a comunidade judaica, que viu o antissemitismo ressurgir de forma violenta e inesperada. Para as populações civis de Israel e de Gaza, a guerra trouxe consequências devastadoras, que permanecerão por gerações. No último sábado, celebramos novamente Simchat Torá. Desta vez, a banda esteve presente. Mas desde 7 de outubro de 2023 a festa tem um tom agridoce: ao recomeçar o Gênesis, lembramos que a lição mais elementar da Torá — a santidade da vida — a humanidade ainda não aprendeu. Que o próximo ciclo nos encontre mais perto da paz. Fernando Lottenberg – Comissário de Combate ao Antissemitismo da OEA e ex-presidente da Conib (Confederação Israelita do Brasil) Lembro perfeitamente aquela manhã de sábado. Tinha voltado de um treino de bicicleta e estava tomando o café da manhã quando as notícias começaram a chegar, primeiramente nas redes, via celular, depois na TV. No início, parecia ser mais um ataque, como outros já ocorridos, com mísseis vindos de Gaza. A preocupação inicial era, naturalmente, com os amigos que vivem em Israel. Trocas de mensagens revelaram que nem mesmo lá já se tinha ideia do horror que se desenrolava no sul do país. Pouco a pouco, sua dimensão real foi se revelando, com as imagens dos ataques a kibutzim, os jovens fugindo do festival de música Nova, os sequestros, os estupros e os assassinatos. Alguns meses depois, estive pessoalmente no Kibutz Nir Oz e no local do festival, conversei com sobreviventes e apenas então pude compreender melhor o que tinha se passado, no atentado mais grave contra comunidades judaicas desde o final da Segunda Guerra Mundial. Passados três anos, muitas coisas ainda não tiveram resposta, nem foi formada uma comissão de investigação para avaliar as falhas de segurança e de inteligência. Mas é também o primeiro aniversário do ataque em que não há mais reféns em Gaza. Que ninguém mais tenha que passar por isso. Eduardo Wurzman – Presidente do Instituto Brasil-Israel Estava na praia naquele dia. Por alguma razão acordei muito cedo, às 6h. Como sempre, fui olhar meu celular e não entendi as mensagens que estava recebendo do meu irmão, que tinha se mudado para Israel há 45 dias e estava em Naharyia, no norte, a seis quilômetros do Líbano. Liguei para ele e demorei para compreender o que estava acontecendo. Abri diferentes sites de notícias de Israel e fui inundado de informações que variavam de trágicas a catastróficas. Eu tenho amigos que moram nos kibutzim ao redor de Gaza, e não consegui falar com eles. As notícias eram cada vez piores, e em um momento a Lina, minha esposa, falou para eu respirar e deixar o celular de lado. Fui caminhar com ela, e desabei a chorar. Eu sempre me considerei abençoado por ter nascido já com Israel existindo como Estado, após dois mil anos de exílio. Eu não conseguia acreditar que Israel poderia deixar de existir em pleno 2023, dessa forma horrível. Fiquei sem chão. Alguns dias depois, fui a Israel. Precisava ir. Me faltava ar para respirar. Fiquei lá alguns dias, conversei com sobreviventes do massacre, ouvi histórias impensáveis de terror. Isso quando ainda não existia o Fórum dos Reféns — as pessoas faziam listas de quem não tinha sido encontrado, reféns etc. Fui visitar famílias que tinham sido evacuadas do sul de Israel, alguns deles feridos, instalados em hotéis e quartos em outras regiões. Fui ver meu irmão em Naharyia, e, à noite, era fácil enxergar os mísseis que já caíam do Líbano, lançados pelo Hezbollah. Me encontrei com várias pessoas, todas em estado de choque. Nos dias após o 7 de Outubro, fiquei chocado com as reações que vi no Brasil. Recebi manifestações de solidariedade e carinho, mas também manifestações absolutamente impensáveis. A pior, talvez, foi de uma pessoa que falou assim: “vocês mereceram”. Eu perguntei: “vocês quem?”. A resposta era óbvia, pois eu sou brasileiro, com muito orgulho. Eu disse: “você quer dizer judeus, certo? Vocês judeus mereceram isso. Ao menos tenha a coragem de ser explícito”. Em Tel Aviv, fui almoçar com os primos da minha esposa. Tinha mais um casal lá, eles tinham deixado os três filhos em bases militares pois tinham sido convocados. Eles me perguntaram o que eu estava fazendo em Israel. Respondi que eu precisava estar lá naquele momento, e que, por mais estranho que pudesse ser, lá eu não precisava me explicar, pois todos estavam compartilhando a mesma dor. Eles não entenderam. Eu contei sobre as reações que tinha experimentado, e eles ficaram surpresos: “Como assim, as pessoas não acreditam no que aconteceu? Como é possível culparem os israelenses ou os judeus pelo que aconteceu?”. Em poucos dias experimentei tudo isso. Para quem estava fora de Israel naquele dia, talvez seja difícil de mencionar a crueldade dos ataques dos 7 de Outubro. Estar lá, visitar kibutzim e ver a dor das pessoas dá um lastro diferente em relação a essa compreensão. Israel é um país de menos de 10 milhões de habitantes, todo mundo conhece alguém morto ou sequestrado naquele dia. Por isso, Israel se tornou um país enlutado. Após três anos, ainda me surpreendo com as reações que eu e tantos outros viveram. Claro que a experiência traumática da guerra, tão longa e devastadora, adicionou inúmeras camadas de complexidade, de todos os lados. Mas o que vivi no 7 de Outubro e nos dias seguintes me assombra até hoje. Andre Lajst – Presidente do Stand With Us Eu estava em casa, quase indo dormir, para às 6h da manhã do dia 7, aqui no Brasil, pegar um voo para Fortaleza e tirar uma semana de férias com amigos. Pouco depois da meia-noite, começa a tocar no meu celular o aplicativo do sistema de Tseva Adom, que é o alerta vermelho de Israel, indicando mísseis e foguetes lançados pelo Hamas a partir da Faixa de Gaza. Em um primeiro momento, eu li notícias de que as comunidades no sul do país eram alvo de foguetes, o que era algo rotineiro, porque o Hamas vira e mexe atacava a região. Depois de uns dez minutos, porém, chegaram notificações de foguetes lançados em direção a Tel Aviv, o que me chamou muito a atenção, porque não é comum uma escalada tão rápida dos disparos da Faixa de Gaza contra o centro de Israel. Perto de 1h, já 7h em Israel, comecei a ler as primeiras notícias de possíveis invasões e combates com terroristas dentro do território israelense. Acabei adormecendo, mas me levantei às 4h30 e logo vi a cena que todo mundo viu, da picape branca com pelo menos oito terroristas do Hamas, armados com metralhadoras, em uma cidade israelense. Essa cena eu nunca vou esquecer, porque parecia um filme. É como se os olhos veem, mas você não acredita no que estava vendo, porque nunca achou que aquilo fosse possível nos seus mais remotos pesadelos. Eu jamais imaginava que uma coisa como aquela poderia acontecer, e estava acontecendo, justamente naquele momento, ao vivo, diante dos meus olhos. Antes de ir para o aeroporto gravei um vídeo e mandei no grupo de Whatsapp para a equipe da StandWithUs Brasil postar o mais rápido possível. Como ainda era madrugada no Brasil, todos estavam dormindo. Logo que aterrissamos, com lágrimas nos olhos, devido à crueldade do ataque terrorista, já comecei a receber mais e mais informações. Na saída do aeroporto, em um carro alugado, enquanto um amigo dirigia até o hotel, eu entrava ao vivo na GloboNews para fazer as primeiras análises. Depois, do quarto do hotel, uma sessão interminável de entrevistas para outros veículos. Na madrugada do dia 8, consegui um voo e retornei para São Paulo. Nos dias seguintes, passei horas conversando com jornalistas, no ar, tentando explicar o que estava acontecendo, quando nós mesmos ainda tentávamos compreender a dimensão do que havia acontecido. Durante as noites, praticamente não dormi, uma média de duas horas no máximo. Não comia direito, e havia uma angústia ainda maior: eu não conseguia falar com os meus pais. Em algum momento eu pensei que precisava ir para Israel. Pensei seriamente em deixar tudo e ir. Mas logo entendi uma coisa: naquele momento, talvez eu pudesse fazer mais por Israel e pelo povo judeu permanecendo no Brasil, falando com jornalistas, explicando, combatendo mentiras, tentando fazer com que as pessoas entendessem o que tinha acontecido. E foi isso que eu fiz. Nunca na história eu imaginei que eu iria viver um dia como aquele, há três anos, que uma atrocidade daquela poderia acontecer em Israel, e que Israel estaria tão indefeso, ao mesmo tempo que é muito forte e que tem um Exército muito poderoso. Nunca acreditei que as comunidades no sul, as crianças, uma balada com jovens seriam alvo de tamanha crueldade do Hamas. Também nunca imaginei que eles conseguiriam sequestrar tantas pessoas como fizeram. O que eu imaginava, sim, é que depois disso, e com os israelenses em cativeiro, uma longa guerra teria início e mudaria para sempre o Oriente Médio, Israel e a vida dos judeus aqui no Brasil. Marcos Knobel – Médico e ex-presidente da Federação Israelita de São Paulo Na manhã de 7 de outubro de 2023, acordei com uma sequência de mensagens vindas de Israel e de amigos aqui em São Paulo. À medida que lia os relatos e assistia às notícias, sentia uma mistura de incredulidade, tristeza e angústia diante da crueldade dos terroristas do Hamas. Ver jovens que estavam celebrando a vida, a liberdade e a convivência sendo brutalmente assassinados foi algo profundamente doloroso. Como judeu e como ser humano, entendi que aquele não era apenas um ataque contra Israel ou contra a comunidade judaica. Foi um ataque contra a própria humanidade, contra os valores mais básicos de dignidade, liberdade e respeito à vida, e uma ferida que continuará marcada em nossa memória coletiva. Caio Blinder – Jornalista Para mim, existe uma conexão direta entre o 11 de Setembro e o 7 de Outubro. Eu fui atacado duas vezes e se alguém que me está me lendo não pensa que também foi atacado, é ruim da cabeça e doente de coração. Naquele 11 de Setembro, eu estava em Manhattan e vi os rolos fumegantes e as trevas civilizatórias. No 7 de Outubro, eu estava na Flórida, diante da televisão. Ao longo do dia, me lembrei da minha família que ao longo da história fugiu de perseguições, penúria e pogroms. Visitar o kibbutz Nir Oz seis meses mais tarde foi uma experiência dantesca. O 11 de Setembro e o 7 de Outubro são viscerais para mim.

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