Flávio Bolsonaro fez uma ótima defesa dos interesses nacionais em Washington, na audiência do Escritório de Comércio dos EUA (USTR) sobre as tarifas a serem possivelmente aplicadas ao Brasil.
Não é mais possível separar o comércio da política e da geopolítica. Nunca foi. Menos ainda nos dias de hoje em que todos os instrumentos de poder, inclusive o comércio, estão interligados no nível nacional e mundial.
A ideia de que o Brasil pode ser uma espécie de “trading house” asséptica, indiferente à opção de política doméstica pelo crime ou pelo império da lei, indiferente à inserção do país no bloco totalitário ou no mundo livre, é uma ilusão perigosíssima, que pode conduzir os brasileiros a perderem tanto sua liberdade quanto seu comércio.
Um sistema de poder corrupto e arbitrário, um “capitalismo de laços” assentado sobre uma justiça dos amigos, complacente para com o crime, admirador e tributário do regime comunista chinês, jamais constituirá base de sustentação para um comércio exterior robusto, para um parque de investimentos atraente, para uma economia saudável. O Brasil está economicamente doente, politicamente doente, diplomaticamente doente. As tarifas americanas seriam simplesmente um sintoma externo dessa doença. Mas o setor produtivo diretamente afetado por elas parece querer apenas tratar o sintoma de forma paliativa, aceitando conviver com a doença, em lugar de partir para sua cura.
A cura é a restauração do Estado de Direito – que implica o combate sem tréguas à corrupção e demais formas de crime organizado – juntamente com a inserção do Brasil no ocidente democrático ao qual pertencemos por vocação.
Vejo essa noção básica e as propostas que apontam para essa cura nas palavras de Flávio Bolsonaro em Washington, assim como em alocuções anteriores suas no CPAC e na Prager U, que já tive a oportunidade de comentar em vídeo.
Representates do empresariado brasileiro criticaram a fala de Flávio no USTR por não ter sido “técnica”. Mas não é possível fechar os olhos e tratar a perspectiva das tarifas americanas como se fossem uma questão “técnica” quando:
- o Brasil está atolado na corrupção e demais formas do crime organizado, a economia e a política profundamente contaminadas pelo crime;
- os EUA e toda a América do Sul, exceto o Brasil, estão-se organizando numa aliança para combater o crime organizado e para desmantelar a máquina de influência do projeto totalitário China-Rússia-Irã que tomou conta de boa parte da região;
- os EUA passaram a tratar o comércio dentro de uma perspectiva geopolítica cujo objetivo essencial é o combate ao crime organizado e ao totalitarismo;
- existe no Brasil, na reta final rumo à eleição, um lado que quer combater o crime organizado, em aliança com os EUA e com o restante da América do Sul, e um outro lado que não quer.
As tarifas foram e serão políticas. A única forma de evitá-las ou eliminá-las é também política:
- no curto prazo, obtendo o seu adiamento, para que não tenham, na eleição, efeito benéfico à corrente política brasileira que representa o status quo complacente para com o crime e hostil aos EUA;
- no médio e longo prazo, tendo no Brasil um governo comprometido com o combate ao crime, consciente da nossa identidade de membro do ocidente democrático, em aliança com os EUA e com o restante da América do Sul, e trabalhando por uma integração comercial profunda (representada pela ideia de uma Área de Livre Comércio do conjunto das Américas, que Flávio Bolsonaro apresentou, de maneira muito pertinente, um dia após a sua alocução no USTR).
Teria o empresariado brasileiro a ilusão de que Lula, caso reeleito, seria capaz de resolver o tema das tarifas com os EUA “tecnicamente”?
As tarifas foram e serão políticas. Basta olhar o calendário:
- as tarifas de 2025 vieram logo depois que Lula tornou-se o paladino da moeda do BRICS (ou seja, da China) em substituição ao dólar;
- as tarifas de 2026 foram sugeridas logo depois que Lula recusou designar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas.
Assim, a tendência é de que, na hipótese de Lula reeleito, as tarifas venham em 2027 duplicadas e triplicadas. Pois obviamente Lula, se reeleito, não vai combater o crime nem retirar o Brasil de sua servidão ao projeto hegemônico do Partido Comunista Chinês. Obviamente Lula, se reeleito, nada fará para combater a corrupção desenfreada nem o arbítrio judicial (dois dos principais pontos que, no relato do USTR, conduzem à proposta de imposição de tarifas). Ou seja, Lula não mudará aquilo que faz os EUA tarifarem o Brasil, pois os problemas que fazem os EUA tarifarem o Brasil não são detalhes técnicos, são os pilares centrais do sistema de poder hoje em voga no nosso país: complacência para com o crime e a corrupção, arbítrio e adesão ao bloco totalitário chinês.
Diante disso, que o empresariado brasileiro deveria começar a calcular o custo-Lula. Esse custo é altíssimo e não é imposto pelos EUA, mas sim por todo o sistema de governança apodrecido e proto-totalitário que vem parasitando o Brasil.
Ao mesmo tempo, o empresariado deveria começar a calcular a oportunidade-Flávio, que hoje se apresenta como a única chance visível de – muito mais do que evitar tarifas – iniciar a cura do Brasil.
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