Você sabe o que é duplipensar?
No livro 1984, George Orwell descreve a capacidade de sustentar duas crenças incompatíveis e aceitar ambas como verdade. Não é apenas mentir, porque o mentiroso ainda distingue a verdade da falsidade. No duplipensar, a contradição é percebida, apagada e reconstruída de acordo com a necessidade do momento. É saber que dois mais dois são quatro e aceitar, logo depois, que são cinco — sem permitir que uma afirmação desminta a outra.
O mecanismo exige três movimentos. Primeiro, defender duas regras opostas para situações comparáveis. Depois, mudar o nome da mesma conduta conforme quem a pratica: o que ontem era “arapongagem” hoje vira “atividade de inteligência”; o que antes era “defesa das instituições” agora se transforma em “golpe”. Por fim, é preciso apagar a regra anterior e atacar quem recorda a contradição. O Ministério da Verdade reescrevia os arquivos. O militante reescreve a própria memória.
É esse mecanismo que ajuda a explicar parte da reação ao afastamento de Andrei Rodrigues. Em 2020, Alexandre de Moraes impediu a posse de Alexandre Ramagem na Direção-Geral da Polícia Federal. A decisão foi apresentada como defesa da moralidade administrativa e da independência da corporação diante de uma possível interferência do presidente da República.
Não por acaso, Mendonça escreveu em sua decisão que o quadro “mais se assemelha ao cenário concebido por Orwell em sua célebre distopia”.
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