Essa sombra que se apodera da mente e do coração das pessoas nas eleições presidenciais precisará ser combatida em algum momento.
Qualquer presidente deverá governar para todos buscando melhorar o país em geral. Famílias cortadas ao meio, amizades rompidas, vizinhos inimigos declarados... são sinais de um ambiente cultural mais próximo do que se espera ver em uma guerra civil. Não é o que se esperava de uma democracia funcional com eleições rotineiras a cada quatro anos.
A saída fácil seria culpar o brasileiro, nossa personalidade, nossas preferências, ou algo do tipo. Mas nós votamos em eleições de menor escala sem que nossos ânimos sobre políticos transbordem desse jeito para os vínculos pessoais.
Faria sentido atacar pessoas próximas para defender um prefeito, um vereador? Um governador que seja? Claro que não, e é muito raro ver as pessoas dominadas por esse espírito de guerra nessas eleições menores. O brasileiro é o mesmo, a urna é igual, as regras também.
É na eleição federal o problema. Aquela que nosso voto é mais irrelevante, diluído em 158.000.000 de outros votos potenciais. É por esses 0,00000001% de impacto que muitos se dispõem a trazer para o nível dos afetos pessoais as lutas mais vis que ocorrem em Brasília.
Nós ainda somos uma democracia muito jovem, completamos agora pouco 40 anos de vida. Estamos no início dos trabalhos de construir uma cultura democrática mais forte.
Houve avanços em vários níveis. Mas precisamos traçar linhas de separação em algum momento. Criticar políticos seja ele quem for é um direito de todo cidadão e que é fundamental para a política avançar. Pegar a raiva dessas críticas que deveria ir para cima, e apontá-las para seu vizinho, familiares, amigos, é uma escolha possível. Mas ela não é nem necessária, nem produtiva para o desafio cultural que temos pela frente.
Em algum momento no futuro os candidatos à presidente precisarão se cumprimentar no começo e no fim do debate. Em algum momento no futuro precisaremos voltar a cumprimentar o outro pela vitória e desejar um bom governo. Sim, parece muito distante agora, mas é um esforço coletivo. Outros países conseguem, vamos conseguir também.
Na escala individual, o esforço começa distribuindo o peso da responsabilidade na proporção certa. O peso da responsabilidade do político pelo que ele faz é alto. O peso da responsabilidade de quem deu um voto nele é 0,00000001%. Um sorriso de um desconhecido qualquer na rua melhorará seu dia mais do que o voto dele teve de impacto nessa eleição, e isso seria verdade tanto faz em quem a pessoa que sorriu para você votou.
Eu não me sinto representado por nenhum dos candidatos. Mas nessa eleição vou me comprometer a parabenizar pela vitória os amigos e parentes próximos que eu sei que votaram no candidato vencedor, e desejar que o candidato faça valer o voto dele com um bom governo. Acho improvável de acontecer, mas ficarei feliz se estiver errado. Se nossos representantes atuais não tiverem a dignidade de fazer esse tipo de gesto, o jeito é começar de baixo para cima.
Thread
Nenhum Voo ainda