Flávio é um candidato muito fraco e os aliados dele sabem disso tão bem quanto seus adversários.
Ele só chegou onde está pelo decreto do Jair, que passou para ele o bastão do seu eleitorado. Não foi um gesto pensado no futuro do país, nem no futuro da direita, mas sim no futuro da família: "esse eleitor é nosso e de mais ninguém".
Ao nomear alguém sem virtudes e com um histórico de proximidade com crimes diversos, Jair topou agravar o risco de mais 4 anos de PT com um candidato fraco à frente para garantir que sua família não cederia espaço no controle da direita.
Do anúncio de que Flávio seria o candidato da direita até ontem, Lula e aliados também adotaram uma estratégia arriscada: agiram com a confiança de que seriam reeleitos. Não buscaram nenhuma inovação eleitoral e não deram resposta a vários dos problemas que apareciam nas pesquisas como prioridades do eleitor: segurança pública, impostos, crise do judiciário. A confiança durou até ontem.
A arriscada aposta de Jair em um tudo-ou-nada em nome da família dele deu certo. A aposta arriscada de Lula em mais-do-mesmo não deu certo.
Pelo que vejo dos comentários da esquerda, estão interpretando esse resultado eleitoral como sendo algum tipo de confirmação de que o eleitor dessa direita está muito comprado no pacote de pautas do Jair, incluindo as anti-democráticas.
Mas é surpreendentemente difícil achar alguém empolgado com o Flávio. Ele puxou os votos do pai, mas não o carisma populista. Muitos radicais de direita acham ele moderado demais, e os moderados acham ele próximo demais da agenda do pai. É um candidato muito fraco - ou seja, o adversário ideal. Apesar disso, obteve uma vantagem grande de votos.
Uma interpretação alternativa a essa da esquerda é de que para boa parte do eleitorado o desgaste com o governo atual foi tão grande que garantir a mudança, mesmo com um candidato fraco, era suficiente para valer o voto.
Isto é, se o Jair tivesse passado o bastão para um candidato mais forte, como Tarcísio ou quem seja, a surra eleitoral provavelmente seria ainda maior.
Vide o resultado em SP: Flávio teve 13 pontos percentuais de votos a mais que Lula, enquanto Tarcísio teve 26 pontos a mais que Haddad. São 14,5 milhões que votaram em Tarcísio, enquanto 12 milhões votaram em Flávio. Só em SP são 2,5 milhões de eleitores que votaram em um mas não no outro.
O cenário de segundo turno em que Flávio é o adversário de Lula é o cenário mais favorável possível que Lula poderia enfrentar nessa eleição. Ainda assim, depois desse primeiro turno, as chances são muito baixas.
Em um outro Brasil em que os partidos aprendem com o tempo, seria um convite a uma profunda reflexão sobre a direção que adotaram, na política, no discurso, no abandono da dita frente ampla, tudo. Isso em outro Brasil.
Nesse Brasil aqui, vai sobrar culpa para todo mundo, menos para aqueles que tomaram as decisões que nos trouxeram até aqui.
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