Roberto Schwarz e três livros que, a meu ver, compõem conjuntos importantes para compreender Machado de Assis e, mais profundamente, o Brasil. Eles não são exatamente três livros independentes: há entre eles uma espécie de movimento contínuo, em que Schwarz vai refinando uma mesma questão.
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1. “As ideias fora do lugar”
É o ensaio de abertura de “Ao vencedor as batatas”.
A questão central é uma aparente contradição: como ideias liberais, importadas da Europa, funcionavam numa sociedade brasileira escravista?
Schwarz não está dizendo que o liberalismo brasileiro era uma mentira. O que Schwarz diz é muito importante: o liberalismo era simultaneamente verdadeiro e inadequado: fazia parte do vocabulário político e intelectual das elites, mas convivia com uma estrutura social baseada na escravidão e no favor.
Daí o extraordinário conceito de “Ascideias fora do lugar”.
E aqui Machado entra de maneira decisiva: sua literatura percebe e dramatiza essa contradição melhor do que muitos discursos políticos.
2. “Ao vencedor as batatas”
Aqui Schwarz amplia a investigação e chega propriamente à literatura.
O subtítulo, Forma literária e processo social nos inícios do romance brasileiro, já anuncia seu método: ler a forma literária como expressão de uma estrutura social.
O centro do livro é José de Alencar, sobretudo “Senhora”, “Diva” e “Lucíola”, em contraste com Machado.
Schwarz mostra como o romance brasileiro do século XIX tenta assimilar formas literárias europeias a uma sociedade profundamente diferente daquela que produziu essas formas.
É uma leitura fértil porque ele não trata a literatura como simples “reflexo” da sociedade. A pergunta é mais sofisticada:
o que acontece com uma forma literária quando ela entra numa sociedade organizada por relações sociais diferentes das que lhe deram origem?
E é aí que Machado começa a aparecer como um escritor extraordinariamente superior.
3. “Um mestre na periferia do capitalismo”
Schwarz pega Brás Cubas e mostra que a genialidade de Machado não está apenas na ironia, no humor ou na invenção narrativa. Está também na própria forma do romance.
O narrador volúvel, caprichoso, contraditório, que interrompe a história, conversa com o leitor, muda de assunto, se contradiz e parece não levar nada a sério; tudo isso passa a ser lido como uma forma literária historicamente determinada.
Brás Cubas pode parecer livre.
Mas sua liberdade é a liberdade de um homem que não precisa trabalhar, não precisa obedecer às regras comuns e pode transformar os outros em instrumentos de sua vontade.
E aqui Schwarz faz algo extraordinário: mostra que a famosa volubilidade de Brás Cubas não é apenas uma característica psicológica. Ela tem uma estrutura social por trás.
O narrador é volúvel porque ocupa uma posição social que lhe permite ser volúvel.
E os três livros juntos?
Podem ser lidos como uma espécie de percurso:
Europa → Brasil → forma literária → Machado → Brás Cubas.
Ou, dessa maneira:
as ideias chegam → encontram uma sociedade escravista → tornam-se contraditórias → essa contradição entra na literatura → Machado transforma a contradição em forma.
É por isso que Schwarz é tão importante.
Ele nos faz perceber que Machado não é grande apesar do Brasil atrasado em que escreveu; ele é grande também porque encontrou uma maneira literariamente extraordinária de incorporar as contradições desse Brasil.
Leia Schwarz.
Leia Machado de Assis.
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