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“Sei que minha fonte está em O Avesso e o Direito, nesse mundo de pobreza e de luz em que vivi durante tanto tempo, e cuja lembrança me preserva, ainda, dos dois perigos contrários que ameaçam todo artista: o ressentimento e a satisfação. A miséria impediu-me de acreditar que tudo vai bem sob o sol e na história, o sol ensinou-me que a história não é tudo. Mudar a vida, sim, mas não o mundo do qual eu fazia minha divindade. Assim é, sem dúvida, que abordei essa carreira desconfortável em que me encontro, enfrentando com inocência uma corda bamba, na qual avanço com dificuldade, sem estar seguro de alcançar a outra ponta. Em outras palavras, tornei-me um artista, se é verdade que não há arte sem recusa nem consentimento.” Camus 1937. .... “O Avesso e o Direito: o nascimento de uma consciência. Há escritores que começam pela técnica. Outros, pela erudição. Albert Camus começou pela verdade. Publicado em 1937, quando tinha apenas vinte e dois anos, “O Avesso e o Direito” não é simplesmente um livro de estreia. É o lugar onde uma sensibilidade se revela antes mesmo de se transformar em filosofia. Tudo aquilo que mais tarde encontraria sua forma madura em O Estrangeiro, O Mito de Sísifo, A Peste e O Homem Revoltado já vive nessas páginas juvenis, ainda sem o rigor conceitual, mas dotadas de rara intensidade. O título é revelador. “O Avesso e o Direito” não são mundos separados. São as duas faces inseparáveis da existência. A alegria convive com a perda; a beleza nasce ao lado da pobreza; a luz do Mediterrâneo projeta sombras inescapaveis. Desde muito cedo, Camus compreende que viver é recusar simplificações. Esse talvez seja o primeiro grande ensinamento do livro: não existe felicidade pura, assim como não existe sofrimento absoluto. A condição humana é feita de contrastes que não podem ser eliminados, apenas habitados. Camus escreve sobre sua infância humilde na Argélia sem qualquer sentimentalismo. A pobreza aparece despida de romantização. Ela limita, humilha e impõe silêncios. Mas também oferece uma forma peculiar de lucidez. Quem cresce sem excessos aprende a reconhecer o valor essencial das coisas: o calor do sol, o mar, uma conversa, um gesto de ternura. É impossível não perceber a figura silenciosa de sua mãe atravessando essas páginas. Quase analfabeta, de poucas palavras, ela se torna um dos grandes símbolos morais da obra camusiana. Não porque represente um ideal abstrato, mas porque encarna dignidade. Camus nunca idealizou os pobres. Tampouco os transformou em heróis. O que o fascinava era a capacidade de alguns seres humanos conservarem a decência quando praticamente tudo lhes faltava. Outra presença constante é a luz. Poucos escritores fizeram da luz um elemento filosófico como Camus. O Mediterrâneo não aparece apenas como paisagem. Ele é um personagem. A claridade intensa dissolve ilusões metafísicas e devolve o homem ao mundo concreto, aos corpos, ao vento, às pedras, ao mar. Essa fidelidade ao mundo sensível explica, em parte, a distância que Camus sempre manteve das grandes promessas de salvação; religiosas ou ideológicas. Antes de procurar um sentido transcendente, ele prefere contemplar a beleza imediata da existência. O Avesso e o Direito também surpreende pela economia da linguagem. Ainda não encontramos o estilo cristalino que tornaria Camus um dos maiores prosadores franceses do século XX, mas já percebemos sua recusa da ornamentação. Cada frase parece buscar apenas aquilo que é indispensável. percebemos sua recusa da ornamentação. Cada frase parece buscar apenas aquilo que é indispensável. Essa contenção confere ao livro uma honestidade quase desarmante. Camus não deseja impressionar. Deseja compreender. Décadas depois, já consagrado e laureado com o Prêmio Nobel, ele escreveria um célebre prefácio para essa obra juvenil. Ali confessaria que tudo o que sabia sobre a moral e sobre a obrigação dos homens para com o mundo aprendera justamente na pobreza e na luz de sua infância argelina.+ +

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