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LEON TRÓTSKI SOBRE SOBRE A QUESTÃO DO "VOTO ÚTIL" E DO "MAL MENOR" TRÓTSKI EXPLICA PORQUE VOTAR NA BURGUESIA E NOS REFORMISTAS CONTRA HITLER É UMA POLÍTICA EQUIVOCADA A decisão do Partido da Causa Operária (PCO) de votar nulo no segundo turno presidencial provocou uma campanha de ataques por parte de petistas e setores da esquerda. Os críticos acusam o Partido de abandonar o marxismo e favorecer o crescimento da extrema direita ao se recusar a apoiar Lula contra Flávio Bolsonaro. Para eles, combater o bolsonarismo significa necessariamente votar no candidato do PT. Quem não aceita essa imposição passa a ser tratado como cúmplice da direita, independentemente de sua política e de sua atuação na luta de classes. O PCO decidiu pelo voto nulo em sua 39ª Conferência Nacional, realizada em 11 de outubro. A resolução partiu de uma avaliação da candidatura de Lula, de suas alianças com setores da burguesia e de sua política de conciliação com a direita. A defesa da redução da maioridade penal, feita pelo próprio presidente poucos dias depois, confirmou as críticas do Partido à orientação assumida pelo PT. O problema não é escolher entre Lula e Flávio Bolsonaro, mas impedir que a classe trabalhadora seja obrigada a abandonar suas reivindicações e sua independência política para apoiar uma frente eleitoral que não representa seus interesses. Os que acusam o PCO de abandonar o marxismo deveriam conhecer melhor a posição dos próprios dirigentes revolucionários diante da ameaça fascista. Em dezembro de 1931, quando o Partido Nazista crescia rapidamente na Alemanha, Leon Trótski escreveu uma carta a um operário comunista alemão para combater os erros da política stalinista. Trótski defendia a frente única entre comunistas e social-democratas para enfrentar fisicamente as organizações fascistas, proteger os sindicatos e defender as organizações operárias. Ao mesmo tempo, condenava o apoio político ao governo de Heinrich Brüning sob o pretexto de que ele representaria um “mal menor” diante de Hitler. Para Trótski, acordos eleitorais e compromissos parlamentares com a social-democracia não se confundiam com a unidade dos trabalhadores na luta contra o fascismo. A Alemanha de 1931 não é o Brasil de 2026, mas a distinção estabelecida por Trótski tem importância para a discussão atual. O revolucionário russo não defendia que os comunistas renunciassem ao combate contra o fascismo em nome da independência partidária, tampouco que entregassem sua política às direções reformistas para formar uma frente eleitoral. A luta comum contra um inimigo não exigia abandonar o programa revolucionário, suspender as críticas aos dirigentes social-democratas ou apoiar governos burgueses. Para que os leitores possam conhecer diretamente essa posição, publicamos abaixo, na íntegra, a carta O perigo iminente do fascismo na Alemanha, escrita por Leon Trótski em 8 de dezembro de 1931. O perigo iminente do fascismo na Alemanha Oct 20, 2026 · @João Sobre o texto Carta de Leon Trótski escrita em Kadıköy, Istambul, em 8 de dezembro de 1931, durante o exílio na Turquia, 13 meses antes de Hitler ser nomeado chanceler. • Publicação original em inglês: The Militant, vol. V, nº 2 (nº 98), 9 de janeiro de 1932, pp. 1 e 4. O jornal pertencia à Liga Comunista da América, a organização trotskista dos Estados Unidos. • Base desta tradução: transcrição de Einde O’Callaghan para o Trotsky Internet Archive (marxists.org), sob licença Creative Commons Atribuição-CompartilhaIgual 2.0, que permite traduzir e redistribuir com crédito e sob a mesma licença. • Ressalva: a versão inglesa já é uma tradução. Existe outra versão inglesa, ligeiramente diferente, com o título Por uma frente única operária contra o fascismo. • Datas russas: Trótski usa o calendário juliano; a correspondência com o calendário atual está nas notas. • As chamadas entre colchetes [1] remetem às notas de contexto no fim do documento. Tradução O perigo iminente do fascismo na Alemanha Carta a um operário comunista alemão sobre a frente única contra Hitler (dezembro de 1931) Neste momento, a Alemanha atravessa uma daquelas grandes horas históricas das quais dependerão, por décadas, o destino do povo alemão, o destino da Europa e, em medida considerável, o destino de toda a humanidade. Se colocarmos uma bola no topo de uma pirâmide, o menor impacto pode fazê-la rolar para a esquerda ou para a direita. É essa a situação que se aproxima a cada hora na Alemanha de hoje. Há forças que gostariam que a bola rolasse para a direita e quebrasse a espinha da classe operária. Há forças que gostariam que a bola permanecesse no topo. Isso é uma utopia. A bola não pode permanecer no topo da pirâmide. Os comunistas querem que a bola role para a esquerda e quebre a espinha do capitalismo. Mas não basta querer; é preciso saber como. Reflitamos com calma mais uma vez: a política conduzida atualmente pelo Comitê Central do Partido Comunista da Alemanha [1] é correta ou incorreta? O que Hitler quer? Os fascistas [2] crescem muito rapidamente. Os comunistas também crescem, mas muito mais devagar [3]. O crescimento nos polos extremos mostra que a bola não pode se manter no topo da pirâmide. O rápido crescimento dos fascistas significa o perigo de que a bola role para a direita. Nisso reside um perigo enorme. Hitler enfatiza que é contra um golpe de Estado [4]. Para estrangular a democracia de uma vez por todas, ele está disposto a chegar ao poder, por assim dizer, apenas pela via democrática. Podemos acreditar seriamente nisso? É claro que, se os fascistas pudessem contar com a obtenção pacífica da maioria absoluta dos votos nas próximas eleições, talvez até preferissem esse caminho. Na realidade, porém, esse caminho é impensável para eles. É estúpido acreditar que os nazistas cresceriam ininterruptamente, como crescem agora, por um período ilimitado. Mais cedo ou mais tarde, esgotarão seu reservatório social. O fascismo introduziu em suas próprias fileiras contradições tão terríveis que há de chegar o momento em que a maré cheia deixará de compensar a vazante. Esse momento pode chegar muito antes de os fascistas terem reunido em torno de si sequer metade dos votos. Não poderão parar, pois aqui nada mais terão a esperar. Serão forçados a recorrer a um golpe. Mas, mesmo deixando tudo isso de lado, a via democrática está fechada para os fascistas. O imenso crescimento dos antagonismos políticos no país e a agitação de bandoleiros dos fascistas levarão inevitavelmente a uma situação em que, quanto mais os fascistas se aproximarem da maioria, mais carregada ficará a atmosfera e mais amplos serão os conflitos e as lutas. Dessa perspectiva, a guerra civil é absolutamente inevitável. Consequentemente, a questão da tomada do poder pelos fascistas não será decidida pelo voto, mas pela guerra civil, que os fascistas estão preparando e provocando. Podemos supor, por um minuto sequer, que Hitler e seus conselheiros não percebam nem prevejam isso? Seria considerá-los uns imbecis. Não há crime maior em política do que esperar estupidezes de um inimigo forte. Se Hitler não pode deixar de saber que o caminho para o poder passa por uma guerra civil terrível, então seus discursos sobre a via pacífica e democrática são apenas um disfarce, isto é, um estratagema. Nesse caso, é ainda mais necessário manter os olhos abertos. O que se esconde por trás do estratagema de Hitler? Seus cálculos são inteiramente simples e evidentes: ele quer adormecer os adversários com a perspectiva de longo prazo do crescimento parlamentar dos nazistas, para apanhá-los cochilando e desferir-lhes um golpe mortal no momento certo. É perfeitamente possível, além disso, que as cortesias de Hitler ao parlamentarismo democrático ajudem a formar, num futuro próximo, algum tipo de coalizão na qual os fascistas obtenham os postos mais importantes e os utilizem, por sua vez, para o seu golpe de Estado. Pois está inteiramente claro que a coalizão — suponhamos — entre o Centro [5] e os fascistas não será uma etapa da solução “democrática” da questão, mas um passo a mais rumo ao golpe de Estado, nas condições mais favoráveis aos fascistas [6]. Devemos planejar segundo a perspectiva mais curta Tudo isso significa que, mesmo independentemente dos desejos do estado-maior fascista, o desfecho pode chegar no decorrer dos próximos meses, se não semanas. Essa circunstância tem importância enorme na elaboração de uma política correta. Se permitirmos que os fascistas tomem o poder em dois ou três meses, a luta contra eles no ano que vem será muito mais difícil do que neste. Todos os planos revolucionários traçados antecipadamente para dois, três ou cinco anos se revelarão apenas um palavrório miserável e vergonhoso se a classe operária permitir que os fascistas cheguem ao poder no decorrer dos próximos dois, três ou cinco meses. O cálculo do tempo na política das crises revolucionárias é, tal como nas operações de guerra, de importância decisiva. Tomemos outro exemplo, mais distante, para esclarecer nossa ideia. Hugo Urbahns [7], que se considera um “comunista de esquerda”, declara o partido alemão falido, politicamente liquidado, e propõe criar um novo partido. Se Urbahns tivesse razão, isso significaria que a vitória dos fascistas é certa. Pois, para criar um novo partido, são necessários anos (e, além disso, não está nada provado que o partido de Urbahns seria em algum sentido melhor do que o partido de Thälmann [8]: quando Urbahns estava à frente do partido, os erros não eram em nada menos numerosos). Sim, se os fascistas realmente conquistassem o poder, isso significaria não só a destruição física do Partido Comunista, mas sua verdadeira falência política. Uma derrota ignominiosa na luta contra bandos de lixo humano — os muitos milhões do proletariado alemão jamais perdoariam isso à Internacional Comunista [9] e à sua seção alemã. A tomada do poder pelos fascistas significaria, portanto, muito provavelmente, a necessidade de criar um novo partido revolucionário e, com toda a probabilidade, também uma nova Internacional [10]. Seria uma catástrofe histórica terrível. Mas supor hoje que tudo isso é inevitável é coisa de que só são capazes os verdadeiros liquidacionistas [11], isto é, aqueles que, sob o manto de sua fraseologia oca, na realidade só são capazes de capitular covardemente diante da luta e sem luta. Com essa concepção, nós, bolcheviques-leninistas, a quem os stalinistas chamam de trotskistas [12], nada temos em comum. Estamos inabalavelmente convencidos de que a vitória sobre os fascistas é possível não depois de sua chegada ao poder, não depois de cinco, dez ou vinte anos de seu domínio, mas agora, nas condições dadas, nos próximos meses e semanas. Thälmann considera inevitável a vitória do fascismo Para alcançar a vitória, é necessária uma política correta. Ou seja, precisamos de uma política adequada à situação atual, à atual relação de forças, e não a uma situação que talvez se desenvolva dentro de um, dois ou três anos, quando a questão do poder já estiver decidida há muito tempo. Toda a desgraça está no fato de que a política do Comitê Central do Partido Comunista da Alemanha parte, em parte consciente e em parte inconscientemente, do reconhecimento da inevitabilidade de uma vitória fascista. De fato, no apelo pela “Frente Única Vermelha” publicado em 29 de novembro de 1931 [13], o Comitê Central do Partido Comunista da Alemanha parte da ideia de que é impossível vencer o fascismo sem antes derrotar a social-democracia [14]. Essa mesma ideia Thälmann repete em todos os matizes possíveis em seu artigo. Essa ideia é correta? Em escala histórica, é incondicionalmente correta. Mas isso não significa de modo algum que, com sua ajuda, isto é, por simples repetição, se possam resolver as questões do dia. Uma ideia correta do ponto de vista da estratégia revolucionária em seu conjunto converte-se numa mentira, e numa mentira reacionária, se não for traduzida para a linguagem da tática. É correto que, para acabar com o desemprego e a miséria, é preciso primeiro destruir o capitalismo? É correto. Mas só um tolo sem remédio tiraria daí a conclusão de que não temos de lutar desde já, com todas as nossas forças, contra as medidas com as quais o capitalismo aumenta a miséria dos operários. Podemos esperar que o Partido Comunista, no decorrer dos próximos meses, derrote ao mesmo tempo a social-democracia e o fascismo? Nenhuma pessoa de raciocínio normal, que saiba ler e fazer contas, se arriscaria a tal afirmação. Politicamente, a questão se coloca da seguinte maneira: podemos repelir com êxito o fascismo no decorrer dos próximos meses, isto é, com a existência de uma social-democracia muito reduzida, mas ainda (infelizmente) muito forte? O Comitê Central responde negativamente. Em outras palavras, Thälmann considera inevitável a vitória do fascismo. Mais uma vez: a experiência russa Para expressar meu pensamento da forma mais clara e concreta possível, voltarei mais uma vez à experiência do levante de Kornilov [15]. Em 26 de agosto de 1917 (calendário antigo) [16], o general Kornilov conduziu suas tropas cossacas e uma divisão irregular contra Petrogrado [17]. No leme do poder estava então Kerenski [18], lacaio da burguesia e aliado de Kornilov em três quartos. Lênin ainda estava escondido por causa da acusação de estar a serviço dos Hohenzollern [19]. Sob a mesma acusação, eu estava naquele momento encarcerado em solitária na prisão de Kresty [20]. Como procederam os bolcheviques nessa questão? Eles também tinham o direito de dizer: “Para derrotar a kornilovada, temos primeiro de derrotar a kerenskiada”. Disseram isso mais de uma vez, pois era correto e necessário para toda a propaganda posterior. Mas isso não era motivo suficiente para deixar de resistir a Kornilov em 26 de agosto e nos dias seguintes e de impedir que ele massacrasse o proletariado de Petrogrado. Por isso, os bolcheviques não se contentaram com um apelo geral aos operários e soldados para que rompessem com os conciliadores e apoiassem a frente única vermelha dos bolcheviques. Não: os bolcheviques propuseram a luta em frente única aos mencheviques e aos socialistas-revolucionários [21] e criaram junto com eles organizações comuns de luta. Isso foi correto ou incorreto? Que Thälmann me responda a essa pergunta. Para mostrar de forma ainda mais nítida como estavam as coisas com a frente única, citarei o seguinte episódio: imediatamente após ser libertado da solitária, depois que os sindicatos pagaram minha fiança, fui direto ao Comitê de Defesa Nacional [22], onde discuti e votei decisões sobre a luta contra Kornilov com o menchevique Dan e o socialista-revolucionário Gots [23], aliados de Kerenski, que me havia aprisionado. Isso foi correto ou errado? Que Remmele [24] me responda a essa pergunta. Brüning é o “mal menor”? A social-democracia apoia Brüning [25], vota nele, assume a responsabilidade por ele diante das massas — com base em que o governo Brüning é o “mal menor”. A Rote Fahne [26] tenta atribuir a mim a mesma posição — com base em que me manifestei contra a participação estúpida e vergonhosa dos comunistas no referendo de Hitler [27]. Mas por acaso a Oposição de Esquerda alemã [28], e eu em particular, exigimos que os comunistas votassem em Brüning e o apoiassem? Nós, marxistas, consideramos Brüning e Hitler, juntamente com Braun [29], partes integrantes de um único e mesmo sistema. A pergunta sobre qual deles é o “mal menor” não tem sentido, pois o sistema contra o qual lutamos precisa de todos esses elementos. Mas esses elementos estão momentaneamente envolvidos em conflitos uns com os outros, e o partido do proletariado deve aproveitar esses conflitos no interesse da revolução. Há sete notas na escala musical. A pergunta sobre qual dessas notas é “melhor” — dó, ré ou sol — não tem sentido. Mas o músico precisa saber quando tocar e quais teclas tocar. A pergunta abstrata sobre quem é o mal menor — Brüning ou Hitler — é igualmente sem sentido. É preciso saber qual dessas teclas tocar. Está claro? Para os de raciocínio fraco, citemos outro exemplo. Quando um dos meus inimigos me serve diariamente pequenas porções de veneno e o outro está prestes a me dar um tiro, primeiro arranco o revólver da mão do segundo inimigo, pois isso me dá a oportunidade de me livrar do primeiro. Mas isso não significa de modo algum que o veneno seja um “mal menor” em comparação com o revólver. A desgraça consiste precisamente em que os dirigentes do Partido Comunista alemão se colocaram no mesmo terreno da social-democracia, apenas com os sinais invertidos: a social-democracia vota em Brüning, reconhecendo nele o mal menor. Os comunistas, por outro lado, que se recusam a ter qualquer confiança em Braun ou em Brüning (e essa é a maneira absolutamente correta de agir), vão no entanto às ruas apoiar o referendo de Hitler, isto é, a tentativa dos fascistas de derrubar Brüning. Mas, com isso, eles próprios reconheceram em Hitler o mal menor, pois a vitória do referendo não teria levado ao poder o proletariado, mas Hitler. É doloroso, sem dúvida, ter de discutir questões tão elementares. É triste, muito triste, quando músicos como Remmele, em vez de distinguir as teclas, pisoteiam o teclado com as botas. Não se trata dos operários que já deixaram a social-democracia, mas dos que ainda permanecem nela Os milhares e milhares de Noskes, Weiss e Hilferdings [30] preferem, em última instância, o fascismo ao comunismo. Mas, para isso, precisam romper de uma vez por todas com os operários. Hoje, ainda não é o caso. Hoje, a social-democracia como um todo, com todos os seus antagonismos internos, é forçada a entrar em conflitos agudos com os fascistas. Nossa tarefa consiste em aproveitar esses conflitos, e não em unir os antagonistas contra nós. No momento atual, a frente deve ser dirigida contra o fascismo. E essa frente comum de luta direta contra o fascismo, envolvendo todo o proletariado, deve ser utilizada nos ataques de flanco contra a social-democracia, que nem por isso são menos eficazes. É necessário, de fato, mostrar total disposição para fazer um bloco com os social-democratas contra os fascistas em todos os casos em que eles aceitarem um bloco. Dizer aos operários social-democratas “abandonem seus dirigentes e venham para a nossa frente única ‘apartidária’” significa acrescentar só mais uma frase oca a outras mil. É preciso saber arrancar, na realidade, os operários de seus dirigentes. E a realidade hoje é a luta contra o fascismo. Há e sem dúvida haverá operários social-democratas dispostos a lutar lado a lado com os operários comunistas contra os fascistas, independentemente da vontade ou até contra a vontade das organizações social-democratas. Com esses elementos avançados é obviamente necessário estabelecer o contato mais estreito possível. No momento, porém, eles não são numerosos. O operário alemão foi educado no espírito da organização e da disciplina. Isso tem seus lados fortes e também seus lados fracos. A esmagadora maioria dos operários social-democratas lutará contra os fascistas, mas — pelo menos por enquanto — apenas junto com suas organizações. Essa etapa não pode ser pulada. Devemos ajudar os operários social-democratas, por meio de atos, nesta situação nova e extraordinária, a pôr à prova o valor de suas organizações e de seus dirigentes neste momento, em que está em jogo a vida ou a morte da classe operária. Devemos forçar a social-democracia a um bloco contra os fascistas A desgraça é que, no Comitê Central do Partido Comunista, há muitos oportunistas assustados. Ouviram dizer que o oportunismo consiste no amor pelos blocos, e é por isso que são contra os blocos. Não entendem a diferença entre, digamos, um acordo parlamentar e um acordo, por mais modesto que seja, para a luta numa greve ou para a defesa das gráficas operárias contra os bandos fascistas. Acordos eleitorais e compromissos parlamentares concluídos entre o partido revolucionário e a social-democracia servem, em regra, à social-democracia. Acordos práticos para a ação de massas, para fins de luta, são sempre úteis ao partido revolucionário. O Comitê Anglo-Russo [31] foi um tipo inadmissível de bloco entre duas direções sobre uma plataforma política comum, vaga, enganosa, que não obrigava ninguém a nenhuma ação. A manutenção desse bloco na época da greve geral, quando o Conselho Geral assumiu o papel de fura-greve, significou, da parte dos stalinistas, uma política de traição. Nenhuma plataforma comum com a social-democracia ou com os dirigentes dos sindicatos alemães, nenhuma publicação, bandeira ou cartaz comum! Marchar separados, golpear juntos! Combinar apenas como golpear, quem golpear e quando golpear! Um acordo assim pode ser feito até com o próprio diabo, com a avó dele e até com Noske e Grzesinski [32]. Com uma condição: não amarrar as próprias mãos. É preciso, sem demora, elaborar finalmente um sistema prático de medidas — não com o objetivo de simplesmente “desmascarar” a social-democracia (diante dos comunistas), mas com o objetivo da luta efetiva contra o fascismo. Esse programa deve tratar das organizações de defesa das fábricas, da atividade desimpedida dos conselhos de fábrica [33], da inviolabilidade das organizações e instituições operárias, dos arsenais que podem ser tomados pelos fascistas, das medidas em caso de emergência, isto é, da coordenação das ações das divisões comunistas e social-democratas na luta etc. etc. Na luta contra o fascismo, os conselhos de fábrica ocupam uma posição de enorme importância. Aqui é necessário um programa de ação particularmente preciso. Cada fábrica deve se tornar um baluarte antifascista, com seus próprios comandantes e seus próprios batalhões. É preciso ter um mapa dos depósitos de armas fascistas e de todos os demais redutos fascistas em cada cidade e em cada distrito. Os fascistas tentam cercar as fortalezas revolucionárias. Os cercadores devem ser cercados! Sobre essa base, um pacto com as organizações social-democratas e sindicais não é apenas permitido, mas um dever. Rejeitá-lo por razões “de princípio” (na realidade, por estupidez burocrática ou, o que é ainda pior, por covardia) é prestar ajuda direta e imediata ao fascismo. Um programa prático de acordos com os operários social-democratas foi proposto por nós já em setembro de 1930 (A virada na Internacional Comunista e a situação na Alemanha [34], publicado pelo Militant), isto é, há um ano e três meses. O que a direção empreendeu nesse sentido? Quase nada. O Comitê Central do Partido Comunista se ocupou de tudo, exceto daquilo que constitui suas tarefas diretas. Quanto tempo valioso e irrecuperável foi perdido! Na verdade, não resta muito tempo. O programa de ação deve ser estritamente prático, estritamente objetivo, direto ao ponto, sem nenhuma dessas “exigências” artificiais, sem segundas intenções, de modo que cada operário social-democrata médio possa dizer a si mesmo: o que os comunistas propõem é absolutamente indispensável na luta contra o fascismo. Sobre essa condição básica, é possível arrastar conosco os operários social-democratas pelo nosso exemplo e criticar seus dirigentes, que inevitavelmente servirão de freio e obstáculo. Só assim a vitória é possível. Uma boa citação de Lênin Os epígonos de hoje, isto é, os péssimos discípulos de Lênin, gostam de preencher suas lacunas, em toda ocasião que se apresenta, com citações — muitas vezes inteiramente fora de propósito. Para os marxistas, a questão não se decide por uma citação, mas por meio de um método correto. Quando se é guiado por métodos corretos, não é difícil encontrar também as citações adequadas. Depois de traçar a analogia acima com a insurreição de Kornilov, disse a mim mesmo: provavelmente encontraremos em Lênin uma explicação teórica para nosso bloco com os conciliadores na luta contra Kornilov. E, de fato, eis o que encontrei na segunda parte do volume XIV da edição russa, numa carta de Lênin ao Comitê Central escrita no início de setembro de 1917 [35]: “Mesmo agora, não é nosso dever apoiar o governo Kerenski. Isso seria uma falta de princípios. Alguém perguntou: então não devemos lutar contra Kornilov? Naturalmente, devemos. Mas não é a mesma coisa. Há um limite. Ele está sendo ultrapassado por muitos bolcheviques que caem no ‘conciliacionismo’ e se deixam arrastar pela corrente dos acontecimentos. Lutaremos, lutamos contra Kornilov, mas não apoiamos Kerenski; expomos suas fraquezas. A distinção é muito sutil, mas importantíssima, e não deve ser esquecida. Em que consiste a mudança de nossa tática depois da insurreição de Kornilov? (continua) 1/2
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