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Em uma vila húngara com cerca de 1,800 habitantes, um estádio foi construído para receber 3.800 pessoas. Inaugurada em 2014, a Pancho Aréna fica em frente à casa do então primeiro-ministro Viktor Orbán, em Felcsút. Entre seus frequentadores estavam empresários, ministros e dirigentes dos principais clubes do país. Nos camarotes, o futebol oferecia acesso a Orbán. Segundo a Transparência Internacional, grandes projetos de construção e infraestrutura eram discutidos naquele ambiente. A sede do Puskás Akadémia reunia algumas das relações que sustentaram o governo do líder húngaro: dinheiro público, negócios privados e proximidade com o poder. Durante os 16 anos consecutivos de governo iniciados em 2010, Orbán fez do futebol uma prioridade do Estado. O financiamento de clubes, estádios e academias acompanhou a concentração de poder nas instituições e ajudou a aproximar empresários, dirigentes esportivos e torcedores de seu projeto nacionalista. A paixão era anterior à carreira política. Orbán passou pelas categorias de base do Videoton e jogou na quarta divisão durante seu primeiro governo, entre 1998 e 2002. Ainda estudante, dividia um time com János Áder e László Kövér, futuros presidente da República e presidente do Parlamento do país, respectivamente. Fundado em 1988 como movimento liberal contrário ao regime comunista, o partido Fidesz foi conduzido por Orbán para a direita. Depois de perder o governo em 2002, ele voltou em 2010 com uma maioria de dois terços no Parlamento, o suficiente para alterar a Constituição. Essa maioria permitiu aprovar uma nova Constituição, restringir as competências do Tribunal Constitucional e ampliar a influência governista sobre instituições de fiscalização. A aposentadoria antecipada de centenas de juízes também abriu vagas no Judiciário. As mudanças reduziram os obstáculos institucionais às decisões do Executivo. O sistema eleitoral foi reorganizado: o Parlamento encolheu, os distritos foram redesenhados e o segundo turno distrital acabou. Uma regra passou a aproveitar votos excedentes dos vencedores na distribuição de cadeiras por lista. Segundo estudo da Public Choice, ela foi decisiva para assegurar maiorias de dois terços em 2014, 2018 e 2022. Na imprensa, empresários aliados compraram veículos, enquanto a publicidade estatal favorecia meios de comunicação alinhados ao governo. Em 2018, mais de 470 veículos foram reunidos na fundação KESMA, um gigantesco conglomerado de mídia na Hungria. A concentração ampliava a circulação das mensagens governistas e dificultava o alcance das críticas, inclusive sobre os gastos esportivos. Orbán apresentava seu governo como defensor da soberania e da identidade cristã húngara diante de imigrantes, organizações civis e instituições europeias. O futebol oferecia uma memória coletiva para esse discurso: a seleção de Puskás, campeã olímpica em 1952 e vice-campeã mundial em 1954, havia colocado o país entre as potências esportivas. Recuperar aquele prestígio se encaixava na promessa de recuperação nacional. Puskás deu nome à academia de Felcsút e ao grande estádio de Budapeste, embora sua trajetória não tivesse ligação equivalente com a vila de Orbán. O governo associava seus investimentos à lembrança do principal ídolo esportivo do país. Uma das ferramentas foi o TAO, mecanismo de incentivo fiscal que permitia às empresas financiarem projetos esportivos e, em troca, reduzia o imposto que pagariam ao Estado, introduzido em 2011. O Estado abria mão de receita enquanto clubes recebiam recursos. Nos dados examinados pelo jornal Átlátszó e pela Transparência Internacional, o futebol concentrava a maior parcela, com destaque para Felcsút, cidade de Orbán, que recebeu cerca de 7 vezes mais dinheiro que qualquer outra. A fiscalização encontrou resistência. O governo tratava os valores como contribuições empresariais, mas a Justiça reconheceu sua natureza pública. Mesmo assim, a federação impôs obstáculos à divulgação dos documentos. A disputa envolvia identificar quais empresas financiavam os projetos, quanto destinavam e quais organizações eram beneficiadas. Os beneficiários integravam um futebol cada vez mais próximo do Fidesz. Gábor Kubatov, dirigente do partido, assumiu a presidência do Ferencváros, maior clube do país. Tamás Deutsch, cofundador do Fidesz, presidia o MTK, maior rival do Ferencváros. O economista e político András Tállai conciliou funções no governo e na administração tributária com a direção do Mezőkövesd, outro clube do país. Em Felcsút, Lőrinc Mészáros, amigo de infância de Orbán, reuniu atuação política local e participação no projeto esportivo. Durante o governo, tornou-se um dos empresários mais ricos da Hungria, com negócios ligados a contratos públicos. Também expandiu sua presença na imprensa, conectando setores relevantes para a sustentação do poder. A construção de estádios distribuía contratos, enquanto dirigentes ligados ao governo apareciam diante das torcidas como responsáveis pelos investimentos. Clubes sustentados por incentivos fiscais e patrocinadores próximos ao Estado passavam a depender dessas condições. A continuidade do financiamento se tornava um interesse compartilhado entre organizações esportivas, empresários e autoridades. Essa política atravessou as fronteiras. O governo financiou clubes e academias em comunidades húngaras de países vizinhos. Em 2018, o jornal Átlátszó identificou cerca de 16 bilhões de forints (245 milhões de reais, aproximadamente) destinados a projetos na Romênia, na Eslováquia e na Sérvia. Nas arquibancadas, a Brigada Cárpata, grupo de ultras, reuniu torcedores de diferentes clubes em torno da seleção. Integrantes desse ambiente foram associados a manifestações racistas, antissemitas e contra pessoas LGBTQIA+. Além de terem uma afinidade declarada com a extrema direita e possível subordinação ao partido de Orbán. Em 2021, Orbán defendeu torcedores que vaiaram jogadores irlandeses ajoelhados contra o racismo. Na mesma temporada, seu governo celebrou a recusa da Uefa em usar a iluminação da Allianz Arena com o arco-íris, proposta em reação à legislação húngara sobre conteúdos LGBTQIA+. Enquanto esses conflitos ampliavam a exposição das posições governistas, os estádios aproximavam o país das entidades esportivas. Budapeste recebeu partidas da Eurocopa e finais europeias. Os eventos ofereciam visibilidade e reconhecimento como anfitriã em um período de críticas internacionais à concentração de poder e às restrições de direitos na Hungria. Em abril de 2026, a vitória de Péter Magyar, do Tisza (partido mais ao centro), encerrou os 16 anos consecutivos de Orbán no governo. Observadores internacionais ainda assim afirmam que haviam vantagens sistêmicas para a vitória do Fidesz de Orbán, que conseguiu usar o futebol de forma estratégica para se consolidar. #ViktorOrbán #Hungria #Autoritarismo #Geopolítica #Política

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