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Antes de a bola rolar, dois torcedores se encontravam no centro do gramado do Estádio Olímpico. Cada um carregava a bandeira de seu clube. Juntos, cumprimentavam as arquibancadas e trocavam os símbolos diante do público, em uma cerimônia que se repetia nos encontros entre as equipes. Os protagonistas eram Roma e Napoli. Durante parte dos anos 1970 e 1980, suas principais torcidas organizadas mantiveram um gemellaggio, termo italiano que designa uma relação de irmandade. Os visitantes eram recebidos pelos anfitriões, compartilhavam setores do estádio e ouviam o nome de seu clube cantado pela torcida adversária. Esse tipo de aliança se difundiu no futebol italiano com o crescimento dos grupos organizados, que podia nascer de amizades entre integrantes, afinidades políticas ou adversários em comum. Entre Roma e Napoli, a aproximação também tinha uma dimensão geográfica e esportiva. Os dois clubes estavam fora do eixo de Turim e Milão, cidades de Juventus, Torino, Milan e Internazionale. Para setores das duas torcidas, o sucesso de outra equipe do centro-sul oferecia uma possibilidade de enfrentar o domínio dos clubes do norte. O confronto ficou conhecido como Derby del Sole, o Clássico do Sol, nome associado à localização das cidades e à atmosfera de confraternização. Entre os grupos envolvidos estavam o Commando Ultrà Curva Sud, da Roma, e o Commando Ultrà Curva B, do Napoli. A organização romanista foi uma referência para os napolitanos, que incorporaram cantos e práticas observados entre os amigos da capital. Em 1982, na vitória da Roma por 3 a 1 no estádio San Paolo, romanistas acompanharam a partida na Curva B, junto dos torcedores do Napoli. Mesmo com a contestação dos anfitriões ao próprio time, os visitantes puderam comemorar o resultado. A Roma conquistou o Campeonato Italiano de 1983. No ano seguinte, a chegada de Diego Maradona começou a alterar as possibilidades do Napoli, que investiu na formação de uma equipe capaz de disputar o título. A aproximação esportiva colocou os antigos aliados na concorrência pelas mesmas conquistas. Foi assim que as coisas começaram a mudar. A amizade, porém, também passou a enfrentar conflitos ligados à identificação dos torcedores com determinados jogadores. Um deles chegou a Nápoles em 1985: Bruno Giordano, atacante que havia defendido a Lazio por dez temporadas. Giordano mantinha uma forte ligação com a maior rival da Roma. Sua contratação pelo Napoli criou uma tensão dentro do gemellaggio: um jogador valorizado pelos napolitanos continuava sendo alvo de insultos dos romanistas. Parte da torcida do Napoli passou a responder com ofensas a Bruno Conti, ídolo da Roma. Segundo a análise do escritor Angelo Forgione, essa troca de insultos ficou evidente no encontro de outubro de 1986, no Olímpico. Ainda assim, o registro daquela partida, vencida pelo Napoli com gol de Maradona, mostra que a tradicional troca de bandeiras foi mantida. Naquele mesmo ano, a Curva Sud atravessou uma divisão interna com a contratação de Lionello Manfredonia, outro jogador com passado na Lazio. Segundo o jornal Il Romanista, a crise no Commando enfraqueceu os defensores do gemellaggio e abriu espaço para grupos que já rejeitavam a relação com os napolitanos. Quando Roma e Napoli voltaram a se enfrentar no Olímpico, em 25 de outubro de 1987, a aliança já estava desgastada. O Napoli chegava como campeão italiano pela primeira vez. Antes do início da partida, os representantes das torcidas entraram em campo para repetir o ritual das bandeiras. Mas os napolitanos foram recebidos com vaias e objetos lançados da arquibancada. A cerimônia, que antes confirmava a amizade, expôs o rompimento antes mesmo de o jogo começar. Dentro de campo, a Roma abriu o placar com Roberto Pruzzo no início do segundo tempo, e o Napoli ficou com nove jogadores depois das expulsões de Careca, por uma cabeçada em Fulvio Collovati, e de Alessandro Renica, pelo segundo cartão amarelo. Mesmo assim, Giovanni Francini empatou de cabeça em um escanteio cobrado por Maradona, e o placar permaneceu em 1 a 1. Ao fim da partida, Salvatore Bagni dirigiu à Curva Sud o gesto dell’ombrello, equivalente a uma “banana”, que se tornou a imagem mais conhecida do rompimento definitivo entre as torcidas. Bagni reconheceu o erro em entrevistas posteriores. Em uma declaração ao Il Romanista reproduzida pelo Goal, afirmou que havia sido insultado, que se arrependeu imediatamente e que pediu desculpas diversas vezes. Nas décadas seguintes, os encontros passaram a acumular episódios de violência. Em junho de 2001, o Napoli, que lutava contra o rebaixamento, recebeu a Roma na penúltima rodada do Campeonato Italiano, e o empate por 2 a 2 adiou a conquista do título pelos visitantes. Fora do estádio, houve confrontos antes e depois da partida. O jornal L’Unità registrou cerca de cinquenta feridos, incluindo dois romanistas esfaqueados. Também foram incendiados oito automóveis, seis pessoas foram presas e houve danos à estação de Campi Flegrei. A violência chegou ao limite com o assassinato do napolitano Ciro Esposito em 2014, cometido pelo ex-ultra romanista Daniele De Santis. Em 2023, confrontos numa rodovia levaram à suspensão das torcidas visitantes dos dois clubes por dois meses. A antiga convivência nas arquibancadas deu lugar a restrições para impedir novos encontros violentos entre as torcidas de Roma e Napoli. Hoje, quando os clubes se enfrentam, o clima que já foi de amizade é de tensão extrema. #Roma #Napoli #DerbyDelSole #SerieA #Itália

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