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Ter um proprietário bilionário não deveria significar poder gastar sem limites. Essa era uma das premissas do fair play financeiro: a capacidade de financiar um clube não poderia depender apenas da disposição de seu dono para cobrir prejuízos. A aplicação dessa regra, entretanto, abriu espaço para negociações e conflitos. Em 2014, Manchester City e Paris Saint-Germain chegaram a uma situação parecida: tinham dinheiro para contratar alguns dos melhores jogadores do mundo, mas precisavam negociar com a Uefa as condições para continuar disputando suas competições. Mais de uma década depois, seus dirigentes ocupam posições diferentes nessa relação. À frente do PSG, Nasser al-Khelaifi ampliou sua presença nas instituições que organizam o futebol europeu. O City acumulou disputas com os responsáveis por fiscalizar suas contas. Entre acordos, investigações e recursos, a trajetória dos dois clubes mostra como o poder no futebol também se constrói fora dos campos. Aprovado pela Uefa em 2010, o sistema procurava conter perdas financeiras e estimular os clubes a equilibrar determinadas receitas e despesas. O dinheiro dos proprietários continuava permitido, mas havia limites para os déficits que esses aportes poderiam cobrir. Investimentos em formação e infraestrutura recebiam tratamento diferente dos gastos com jogadores. O modelo também preservava uma vantagem dos clubes que já arrecadavam mais. Como o limite de gastos estava relacionado às receitas, equipes com grandes torcidas e contratos comerciais consolidados tinham mais espaço para investir. A regulação buscava sustentabilidade financeira, sem estabelecer condições econômicas iguais para todos. Nesse cenário, os patrocinadores passaram a ocupar uma posição decisiva. O dinheiro recebido pela venda de publicidade era receita comercial e poderia ampliar a capacidade de gasto. Um aporte do proprietário tinha outro tratamento. Identificar a origem dos recursos se tornou tão importante quanto conferir sua entrada nas contas. Um contrato também poderia ser questionado pelo valor atribuído à publicidade. Foi o que aconteceu com o PSG: no acordo de 2014, a Uefa registrou que reconhecia para o contrato com a Qatar Tourism Authority um valor significativamente inferior ao apresentado pelo clube. Em maio de 2014, City e PSG estavam entre nove clubes que assinaram acordos com a Uefa. A entidade apresentou os compromissos como uma maneira de alcançar o equilíbrio financeiro em pouco tempo, com metas e restrições que seriam acompanhadas pelos responsáveis pela fiscalização. Para os clubes, o acordo preservava a participação em uma competição importante para receitas, exposição internacional e contratação de jogadores. Para a Uefa, permitia exigir ajustes sem recorrer imediatamente à exclusão. A controvérsia estava no peso dessas consequências diante das vantagens esportivas já construídas. Em abril de 2017, a Uefa anunciou que City e PSG haviam cumprido os requisitos e objetivos dos acordos. Os clubes deixaram aquele regime de acompanhamento. A declaração, porém, não encerraria todas as discussões sobre suas operações financeiras. Os bastidores das negociações ganharam outra dimensão em 2018, com as revelações do Football Leaks. Reportagens do Der Spiegel apontaram que Gianni Infantino, então secretário-geral da Uefa, havia participado de conversas reservadas para construir os acordos com os dois clubes. Segundo a investigação, Infantino compartilhou materiais confidenciais e sugeriu compromissos que não teria autorização para oferecer. Em uma mensagem a Khaldoon al-Mubarak, presidente do City, explicou que algumas formulações do documento pareciam mais duras e pediu que fossem interpretadas levando isso em conta. Nos anos seguintes, Al-Khelaifi ampliou sua presença justamente nas estruturas que discutem o funcionamento do futebol europeu. O dirigente reuniu a presidência do PSG, o comando da Qatar Sports Investments, a presidência do grupo beIN e posições na representação dos clubes e na Uefa. Essas funções aproximaram Al-Khelaifi de investidores, emissoras e dirigentes. Em 2021, durante a crise da Superliga, projeto do qual o PSG ficou fora, ele assumiu a presidência da Associação Europeia de Clubes, então chamada ECA, hoje EFC. Passou, assim, a representar outros clubes nas negociações com a Uefa. A associação também divide com a Uefa a gestão comercial das competições por meio da empresa UC3. Isso não tornou o PSG dono da Champions nem deu a Al-Khelaifi controle sobre punições, mas colocou o presidente de um clube fiscalizado entre aqueles que negociam receitas e discutem o futuro do torneio. O City preferiu o caminho do confronto. Em 2020, a Uefa impôs uma exclusão de duas temporadas de suas competições e uma multa de €30 milhões, em um processo sobre receitas de patrocínio e falta de cooperação com a investigação. O clube recorreu ao Tribunal Arbitral do Esporte. O tribunal derrubou a exclusão. Parte das acusações financeiras não foi comprovada; outra parte estava fora do prazo aplicável. A decisão permitiu ao City contestar publicamente a atuação da Uefa. Também estabeleceu um resultado mais específico do que as versões de absolvição completa ou de vitória exclusivamente por prescrição: a exclusão caiu, mas uma infração continuou reconhecida. Na Inglaterra, o clube também questionou as regras da Premier League para transações. Em setembro de 2026, uma comissão independente concluiu que o City havia cometido graves violações financeiras entre as temporadas 2009/10 e 2017/18. Segundo o comunicado da Premier League, o clube apresentou informações financeiras incorretas e descumpriu obrigações de cooperação com a investigação. O clube nega irregularidades e afirma que a decisão contém erros materiais de direito, de princípio e de fato. A conclusão da comissão, portanto, está sendo contestada e ainda depende do julgamento desta etapa. Essa sobreposição de interesses acompanha um conflito próprio do futebol europeu. A Uefa precisa controlar as contas dos clubes e, ao mesmo tempo, organiza competições cujo valor comercial depende da presença deles. Uma exclusão pode atingir o participante punido e o produto que a própria entidade vende. #FairPlayFinanceiro #ManchesterCity #PSG

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