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Em dezembro de 2022, o “¿Qué mirás, bobo?” de Lionel Messi ganhou as ruas argentinas. O jogador que durante anos precisou responder a dúvidas sobre sua identificação com o seu país tinha acabado de “criar” uma nova expressão para vocabulário popular da Argentina. Esse é só um pequeno exemplo da transformação do craque de “corpo estranho” em ídolo e representante quase máximo do argentinismo. A reação aconteceu depois da classificação contra a Holanda, nas quartas de final da Copa do Mundo de 2026. Irritado, Messi dirigiu a provocação ao atacante Wout Weghorst. A repercussão incorporava outra imagem à do craque reservado: a de um capitão que discutia, enfrentava adversários e expressava publicamente sua indignação. Nascido em Rosario, Messi deixou o país aos 13 anos, em 2000, para jogar nas categorias de base do Barcelona. Sem estrear profissionalmente em um clube argentino, seus compatriotas acompanharam pela televisão o crescimento de um jogador que construía a carreira do outro lado do Atlântico. O destino tinha uma particularidade: Barcelona é a capital da Catalunha, uma região da Espanha com língua, tradições e identidade próprias. O clube construiu uma ligação histórica com essa identidade e preservou manifestações catalãs mesmo diante das restrições impostas pela ditadura de Francisco Franco (1939–1975). Em 2019, ao comentar uma homenagem recebida do governo catalão, Messi destacou que já havia vivido mais tempo ali do que na Argentina e que seus filhos eram catalães. A identificação com o lugar onde cresceu convivia com a ligação com o país em que nasceu. Ainda adolescente, Messi foi procurado pela Federação Espanhola, que tentou convencê-lo até por meio dos companheiros, segundo Ginés Meléndez, responsável por suas categorias de base. Em 2015, Vicente del Bosque, então técnico da Espanha, confirmou a tentativa e explicou que o jogador e sua família haviam escolhido a Argentina. Uma fita VHS com imagens de Messi, entregue por seu representante à comissão técnica da Argentina em 2003, ajudou a colocá-lo nos planos da Federação Argentina de Futebol (AFA). Diante do interesse espanhol, a AFA acelerou sua convocação. Em junho de 2004, ele estreou pelo sub-20, marcando na goleada por 8 a 0 sobre o Paraguai. No ano seguinte, conquistou o Mundial Sub-20 como artilheiro e melhor jogador, além de estrear na seleção principal. Em 2008, ganhou o ouro olímpico. A escolha pela Argentina e as primeiras conquistas, entretanto, não impediram que seu comprometimento fosse questionado quando os resultados da equipe principal não correspondiam às expectativas. Em 2009, Messi já respondia publicamente às acusações de “não vestir a camisa”. Uma das explicações que apresentava era justamente a distância: os argentinos não o tinham visto crescer no futebol profissional do país. O reconhecimento de seu talento convivia com dúvidas sobre seu envolvimento com a seleção. A comparação com Diego Maradona aumentava essa cobrança. Sua origem popular, a conquista da Copa de 1986 e a postura de confronto alimentavam uma veneração que ultrapassava o campo. Para parte da torcida, Maradona representava também uma maneira de demonstrar paixão pela Argentina, diante da qual a personalidade reservada de Messi destoava. A cobrança ganhou uma expressão concreta na Copa América de 2011, disputada em território argentino. O fato de Messi não cantar o hino entrou no debate sobre seu comprometimento. Seu pai, Jorge, precisou explicar publicamente que aquilo dependia da personalidade de cada um. As derrotas seguintes prolongaram o desgaste. Em 2014, a Argentina perdeu a final da Copa do Mundo para a Alemanha. Em 2015 e 2016, caiu diante do Chile, nos pênaltis, nas decisões da Copa América. Depois da última delas, Messi anunciou que deixaria a seleção e que enxergava a decisão como o melhor para todos. “Acredito que é o melhor para todos, para mim e para muita gente que deseja isso”, afirmou Messi ao anunciar a decisão. A possibilidade de perdê-lo mobilizou torcedores em torno do pedido “No te vayas”. A discussão sobre o que Messi ainda devia à Argentina passou a dividir espaço com o receio de que ele não voltasse. Em agosto de 2016, o jogador anunciou seu retorno. A mudança mais visível aconteceu na maneira de liderar e de se apresentar ao público. Messi passou a falar com mais firmeza, a defender os companheiros e a demonstrar suas reações diante das câmeras. Com Lionel Scaloni no comando técnico da seleção da Argentina, essa presença ganhou ainda mais força. O discurso antes da decisão da Copa América de 2021 contra o Brasil, revelado no documentário Sejam Eternos: Campeões da América, tornou essa liderança conhecida fora do vestiário. “Esta Copa era pra ser disputada na Argentina, mas Deus a trouxe para cá, para que a levantemos no Maracanã”, disse Messi aos companheiros. A música “Muchachos” é uma reverberação dessa sintonia entre Messi e os argentinos. Criada pelo torcedor Fernando Romero a partir de uma canção da banda La Mosca, a versão dedicada à seleção ganhou as arquibancadas no Catar. Sua letra apresentava a Argentina como a “tierra de Diego y Lionel”. A Copa de 2022 consagrou essa aproximação, que continuou ganhando expressões fora do campo. Em junho de 2026, depois de um asado na concentração argentina em Kansas City, Messi apareceu em um vídeo cantando, muito animado, uma música de La Mona Jiménez, cantor de forte representatividade cultural na Argentina, numa celebração com os companheiros. O período entre o rótulo de “espanhol” e a “terra de Diego e Lionel”, mudou a conexão de Messi com parte de seu público. Ao longo dos anos, os argentinos também passaram a contar a história do seu país a partir da relação com Lionel Messi. #Messi #Argentina #SeleçãoArgentina #FutebolECultura

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