Contar mais para governar melhor: dois modelos distintos para o futuro da estatística oficial
A atual proposta dos Estados Unidos para restringir a população considerada no Censo de 2030 contrasta com um movimento de sentido inverso no Brasil que é o de ampliar o olhar estatístico para que ninguém fique fora da representação da realidade nacional. O IBGE vem incorporando segmentos historicamente invisibilizados — indígenas, quilombolas, população em situação de rua, brasileiros residentes no exterior, trabalhadores de plataformas digitais, entre outros — reconhecendo que novas formas de vida, trabalho e território exigem novas formas de mensuração.
A diferença não está apenas em quem contar, mas em como conhecer a sociedade. Enquanto a proposta estadunidense pode estreitar o universo estatístico por critérios políticos, o desafio brasileiro é o de ampliar a capacidade de observação, combinando Censos e pesquisas com registros administrativos, cadastros públicos, bases de dados, informações geoespaciais, redes sociais e outras fontes digitais. A era dos grandes dados permite superar a estatística episódica e construir uma visão mais contínua e dinâmica da sociedade.
Isso aponta para uma transformação decisiva, uma vez que o IBGE pode deixar de ser apenas o instituto que realiza pesquisas para se consolidar como articulador de um verdadeiro ecossistema nacional de dados. A incorporação de múltiplas fontes, sob critérios de qualidade, sigilo, transparência e governança pública, não substitui o Censo, porém amplia a sua capacidade de representar uma sociedade cada vez mais complexa.
A questão de fundo é, portanto, política e civilizatória, pois na era digital, o Estado democrático deve escolher entre contar menos ou conhecer mais? A experiência brasileira aponta para uma terceira via que é a de contar todos, integrar múltiplas fontes e transformar dados em conhecimento público. Não se trata apenas de fazer uma estatística mais abrangente, mas de reconstruir um Estado capaz de enxergar a sociedade que efetivamente existe e, a partir dela, planejar o futuro.
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