RESGATAR O RESPEITO IRRESTRITO AO SER HUMANO E A TODO SER
LeonardoBoff
Já temos constatado neste espaço, a erosáo da ética que atinge todos os âmbitos da vida. O mesmo se pode dizer da falta de respeitro entre as pessoas, as sociedades e as nações. Fatos gritantes são o desrespeito completo das forças de Israel cometendo genocídio a centenas de crianças inocentes da Faixa de Gaza. O mesmo ocorre no Sudão e em outros lugares de guerra. Tais tragédias pertencem à crise civilizatória atual.
Temos que resgatar o respeito ilimitado como valor fundamental. Não apenas entre os humanos. Com a nova consciência ecológica e as new sciences ligadas á vida, à natureza, ao cérebro e à nova cosmologia,entendida como cosmogênese, vale dizer, o universo ainda em expansão e complexificarão: o respeito à Terra, à natureza e a todo ser é imperativo, pois todos estão dentro da dinâmica do processo evolutivo e possuem história,certa subjetividade e direitos que devem ser respeitados.
Para esta tarefa, sirvo-me de alguém que, além de médico, dedicou toda a sua vida a pensar o respeito. Refiro-me a Albert Schweitzer (1875-1965), oriundo da Alsácia.
Desde cedo apresentou traços de genialidade. Tornou-se famoso exegeta bíblico com vasta obra especialmente sobre questões ligadas à possibilidade ou não de se fazer uma biografia científica de Jesus. Era também um exímio organista e concertista das obras de Bach, por toda a Europa.
Em consequência de seus estudos sobre a mensagem de Jesus, especialmente do Sermão da Montanha, com sua centralidade no pobre, no faminto e sedento, resolveu abandonar tudo e estudar medicina.
Formado, em 1913 foi para a África como médico em Lambarene, no Gabão belga, exatamente para aquelas regiões que foram dominadas e exploradas pelos colonizadores europeus. Diz explicitamente numa carta:
“O que precisamos não é enviar para lá missionários que queiram converter os africanos, mas pessoas que se disponham a fazer para os pobres o que deve ser feito, caso o Sermão da Montanha e as palavras de Jesus possuam algum valor. Se o Cristianismo não realizar isso, perdeu seu sentido. Depois de ter refletido muito, isso ficou claro para mim: minha vida não é nem a ciência nem a arte, mas tornar-me um simples ser humano que, no espírito de Jesus, faz alguma coisa, por pequena que seja”(Schweitzer, 1994 p. 25-26).
Em seu hospital, especialmente para hansenianos(leprosos) no interior da floresta tropical, entre um atendimento e outro de doentes, tinha tempo para refletir sobre os destinos da cultura e da humanidade. Considerava a falta de uma ética humanitária como a crise maior da cultura moderna. Dedicou anos no estudo das questões éticas que ganharam corpo em vários livros, sendo o principal deles O respeito diante da vida (Ehrfurcht vor dem Leben) que cito no final do artigo.
Tudo em sua ética gira ao redor do respeito, da veneração, da compaixão, da responsabilidade e do cuidado para com todos os seres, especialmente, para com aqueles que mais sofrem.
Ponto de partida para Schweitzer é o dado primário de nossa existência, a vontade de viver que se expressa:”Eu sou vida que quer viver no meio de vidas que também querem viver”(Wie wir überleben können, 73). À vontade de poder (Wille zur Macht) de Nietszche, Schweitzer contrapõe a vontade de viver (Wille zum Leben). E continua :
“A idéia-chave do bem consiste em conservar a vida, desenvolvê-la e elevá-la ao seu máximo valor; o mal consiste em destruir a vida, prejudicá-la e impedi-la de se desenvolver. Este é o princípio necessário, universal e absoluto da ética”(op. cit. p. 52 e 73).
Para Schweitzer, as éticas vigentes são incompletas porque tratam apenas dos comportamentos dos seres humanos face a outros seres humanos e esquecem de incluir a natureza e todas as formas de vida que se nos apresentam. O respeito que devemos à vida “engloba tudo o que significa amor, doação, compaixão, solidariedade e partilha”(op. cit. 53).
Numa palavra: “a ética é a responsabilidade ilimitada por tudo que existe e vive” (Wie wir überleben, p. 52 e Was sollen wir tun p. 29).
Como a nossa vida é vida com outras vidas, a ética do respeito à vida deverá ser sempre um con-viver e um con-sofrer (miterleben und miterleiden) com os outros. Numa formulação suscinta afirma :”Tu deves viver convivendo e conservando a vida, este é o maior dos mandamentos na sua forma mais elementar”(Was sollen wir tun? op. cit. p. 26).
Dai derivam-se comportamentos de grande compaixão e cuidado. Interpelando seus ouvintes numa homilia conclama:
“Mantenha teus olhos abertos para não perder a ocasião de ser um salvador. Não passe ao largo, inconsciente, do pequeno inseto que se debate na água e corre risco de se afogar. Tome um pauzinho e retire-o da água, enxugue-lhe as asinhas e experimente a maravilha de ter salvo uma vida e a felicidade de ter agido a cargo e em nome do Todo-poderoso. O verme que se perdeu na estrada dura e seca e que não pode fazer o seu buraco, retire-o e coloque-o no meio da grama. ‘O que fizerdes a um desses mais pequenos foi a mim que o fizestes’.
Esta palavra de Jesus não vale apenas para nós humanos mas também para as mais pequenas das criaturas”(Was sollen wir tun, op.cit. p. 55).
A ética do respeito de Albert Schweitzer une inteligência emocional e cordial num esforço de tornar a ética um caminho de salvaguarda de todas as coisas e de resgate do valor que elas possuem em si mesmas.
O maior inimigo desta ética é o embotamento da sensibilidade, a inconsciência e a ignorância que fazem perder de vista o dom da existência e a excelência da vida em todas as suas formas. O ser humano é chamado a ser o guardião de cada ser vivo. Ao realizar esta missão, ele alcança o grau maior de sua t.co/FOiTIiIvLo Escrituras são claras:ele é feito cuidador e guardador do jardim do Éden, da Terra-Mãe.
Concluimos com a seguinte observação: ou vivemos o respeito incondicional a todo o ser, especialmente ao ser vivo e em particular ao ser humano, ou então perdemos a base que sustenta o empenho pela dignidade e pelos direitos humanos.
Outro seria o caminho da modernidade se este ideal fosse assumido como central e não a vontade de potência.
Se não respeitarmos todo ser, acabaremos não respeitando o ser humano, homem e mulher, o ser mais complexo e misterioso da criação. Mas também o mais vulnerável, quando pobre,doente e discriminado.
Sem o respeito e a veneração perdemos também a memória do Sagrado e do Divino que perpassam o universo e que emergem na consciência humana.
Liiteraturara de ferida;
Schweitzer, A., Ehrfurcht vor dem Leben. Grundtexte aus fünf Jahrhunderten, C. H. Beck Verlag, Munique 1966.
- Kultur und Ethik, C. H. Beck Verlag, Munique 1960.
- Wie wir überleben können. Eine Ethik für die Zukunft, Herder, Freiburg 1994.
- Was sollen wir tun? Verlag Lambert Schneider, Heidelberg 1986
Leonardo Boff escreve para a revista LIBERTA do ICL (t.co/vA1lvfOsK2; escreveu também Trnasparência nas pessoas e nas instituições,Vozes 2025(leonardoboff.org).
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