De um lado, discursos sobre Deus, pátria, família.
Do outro, discursos sobre democracia, justiça social, direitos humanos.
Em ambos os lados, um histórico de corrupção, acordão, impunidade, medidas autoritárias e farras, em frequências e graus variados, bem como de indiferença ao sofrimento dos outros, sejam eles alvos de tiros, vírus, retaliações, censuras, ou da pobreza permanente.
Os brasileiros escolhem hoje quem terá maior poder de barganha neste sistema alheio a slogans eleitorais de cooptação de massa.
Eles já escolheram, embora com um ou outro freio pontual, manter esse sistema em funcionamento, em nome de uma polarização de fachada que satisfaz suas necessidades de pertencimento a uma coletividade irracional qualquer, onde todas as verdades comprometedoras sobre seus líderes são interpretadas automaticamente como mentiras de seus críticos e adversários.
Agora decidem se um canastrão idoso permanece no poder com amigos no STF, mas um Senado razoavelmente hostil; ou se um canastrão jovem chega ao poder com um Senado amigo, para promover uma “mudança” que ninguém sabe exatamente detalhar qual é.
Haverá festa de um lado e velório do outro, com a mistura de cinismo perverso e ingenuidade atroz que marca a disputa entre dois grupos populistas - os eternos profetas do apocalipse -, cada qual atravessado por um ódio muito maior aos rivais do que à corrupção, à impunidade, ao autoritarismo, e por um amor muito maior por políticos de estimação e pela identidade tribal que por soluções efetivas a problemas do país.
Sem dúvida, o perdedor terá merecido a derrota e o vencedor terá de ser vigiado, para se lembrar de governar não para a sua bolha, mas para o povo, e para não ampliar sua blindagem e a de seus comparsas, ligados a tantos esquemas.
Que as mentes deslumbradas e moralmente anestesiadas se curem logo deste vexaminoso período histórico de culto a impostores.
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