Thread

O que está acontecendo no Brasil A pandemia mostrou que a mídia tradicional ainda goza de muita autoridade no Brasil. Só é verdade aquilo que passa no Jornal Nacional; só é civilizado aquilo que os colunistas dos jornais e comentaristas dos telejornais dizem que é civilizado. Uma âncora fazendo cara de desdém vale mais do que dados objetivos da realidade. Faz muito tempo que percebi, graças ao wokismo, que a maioria não quer entender a política ou a sociedade; quer ter uma postura política adequada para se apresentarem em sociedade. A política é para maioria uma espécie de etiqueta. Dizer “nem Lula, nem Bolsonaro”, no mais das vezes, decorre da vontade de parecer inteligente e sofisticado. Não é realista dizer “nem Lula, nem Bolsonaro”, pois com certeza algum dos dois irá nos governar pelos próximos quatro anos. Os jornalistas dos grandes veículos não tiram suas simpatias e aversões apenas dos seus próprios corações, mas dos bolsos dos grandes grupos de interesse econômico que os financiam. (Veja-se, por exemplo, a briga de foice entre o Metrópoles e o Estadão, expondo os financiamentos de ambas as partes.) Às vésperas das eleições, houve uma rodada de jantares de banqueiros com os candidatos, rodada essa que resultou num grande aumento da simpatia por Flávio Bolsonaro. Só depois disso, Mendonça resolveu tirar o sigilo do Master e, assim, revelar que o “herói da democracia” era, na verdade, um item caríssimo da folha de pagamentos de Daniel Vorcaro. Ato contínuo, os grandes veículos começaram a retratar Alexandre de Moraes como um corrupto e a instá-lo à renúncia. Notem que são duas narrativas diferentes, a do mainstream e a do bolsonarismo: para os primeiros, Alexandre de Moraes é um corrupto que não atua de maneira republicana; para os segundos, Alexandre de Moraes é um ditador de toga e grave violador dos direitos humanos presos do 8 de janeiro). Agora, olhemos para o público: enquanto o cidadão teleguiado pelo mainstream está desesperançoso, o bolsonarista está dizendo “finalmente!”. Por obra de quem Alexandre de Moraes caiu em desgraça? Sem dúvida, a ala mais radical do bolsonarismo, capitaneada por Eduardo Bolsonaro, explica a guinada pela atuação de Eduardo no exterior, pois, ao pedir a Magnitsky, ele acabou causando uma alteração na configuração do Supremo que permitiu que o processo caísse na mão de Mendonça. A Magnitsky em si mesma não funcionou, mas os vistos foram suficientes para fazer Barroso se aposentar e Fux mudar de postura. Peço licença para um contrafactual: se a iniciativa de Eduardo Bolsonaro não tivesse alterado a configuração do Supremo, os banqueiros continuariam preferindo Lula a Flávio Bolsonaro? Não. O governo Lula é tão desorientado, que seu maior ativo eleitoral, até o momento, é desfazer uma medida que ele mesmo fez, a taxa das blusinhas. Lula é um fracasso evidente e sem perspectiva de melhora — ao contrário: se já está ruim agora, imaginem com o split payment da reforma tributária, que Flávio promete anular. Com o split payment, qualquer compra sua já deposita o imposto direto nos cofres do governo, conforme tem explicado Adolfo Sachsida. Vai ficar difícil até devolver a blusinha. Assim, se é de conhecimento de servidores federais que o homem forte do regime recebe mesada do tóxico banqueiro Vorcaro, era uma questão de tempo até isso vazar pra imprensa. A essa altura do campeonato, já sabemos que tudo se vaza neste país. Por isso é que sabemos que não existe vídeo de Flávio pelado em suruba de Vorcaro: se existisse, já teria aparecido, já que houve tantas tentativas de impedir a sua candidatura e trocá-lo por Tarcísio ou Caiado. A mim me parece evidente que se iniciaria contra Xandão, de qualquer jeito, uma campanha midiática ao estilo Lava Jato. Agora, é claro que, sem essa alteração na configuração do Supremo, daria mais trabalho derrubá-lo. Eduardo Bolsonaro diz há tempos que Xandão sempre dobra a aposta. Ele tem se provado o melhor preditor do comportamento de Xandão — bem ao contrário do seu pai, que, após organizar a maior manifestação de massas da História do Brasil, fez uma cartinha pedindo-lhe desculpas. Uma vergonha que custou muito caro. No curto prazo, a única certeza é a instabilidade do Brasil. Estamos num momento de transição entre a Nova República e a incógnita que virá depois dela. A crise política vem desde 2013, mas, antes de 2019 ou 2022, os descontentes achavam que o grande problema eram o PT ou o PMDB (à esquerda, surgiu até o conceito de peemedebismo). Não era. O problema era (e é) a Constituição de 1988, que deposita todo o poder do Brasil nas mãos dos bacharéis de direito: numa Suprema Corte que julga a todos, inclusive a si própria, e nos procuradores que não prestam contas a ninguém. Por anos, o establishment procurou resolver a crise com um juiz herói, com um procurador herói, agravando, sem perceber, a própria doença da Constituição de 1988. E assim chegamos à contradição total, que é um juiz do STF querendo perseguir o outro por uma maneira que ele próprio considera constitucional. É a CF 88 devorando a si própria. Ao atingir esse estágio, o país só tem um grupo político de massas capaz de oferecer uma narrativa coerente para o que está acontecendo, e esse grupo é o bolsonarismo. À medida que as ações de Alexandre de Moraes fiquem mais tresloucadas — e ele sempre dobra a aposta —, será impossível a mídia tradicional se manter na velha cantilena anti-corrupção, sem aderir ao discurso bolsonarista. Será o bolsonarismo, portanto, que irá conduzir a formação da novíssima república brasileira.

Nenhum Voo ainda