O combate ao crime hoje não acontece só onde ele termina e fica visível.
Acontece na fronteira, no contêiner do porto, na conta que recebe o dinheiro do outro lado do mundo. A gente enxerga o fim da linha, o corpo na calçada, a loja fechando às sete, o menino recrutado aos treze. A decisão do jogo foi tomada muito antes disso, longe de onde a bala pega.
Quem ainda trata isso só como caso de polícia de bairro está enganando vocês. Deixou de ser tráfico de esquina faz tempo. Virou estrutura transnacional, com logística, rota, cobrança, território e armamento que morro nenhum fabrica sozinho.
Vale olhar quem já enfrentou coisa parecida.
As FARC, guerrilha marxista-leninista que virou cartel de cocaína sem nunca abrir mão do discurso de libertação do povo, não caíram só por boa vontade nacional. Caíram depois de anos de Plano Colômbia, dinheiro e inteligência americana, e de uma operação contra Raúl Reyes executada dentro do Equador. Extraterritorial, portanto, com todo o desgaste diplomático que isso trouxe.
No Peru, Abimael Guzmán, o professor de filosofia que fundou o Sendero Luminoso e se autoproclamou quarta espada do marxismo, foi preso porque um bom punhado de policiais passou meses catando lixo em Lima até achar tubo vazio de pomada de psoríase num apartamento acima de um estúdio de dança. Doze anos de terror encerrados por trabalho chato de inteligência feito todo santo dia, e não por operação espetacular.
E é isso que muita gente não quer encarar. Governador hoje não pode ser só administrador de secretaria. Precisa ter interlocução que atravessa estado e às vezes atravessa país, porque a tecnologia que decide esse tipo de guerra não está sendo desenvolvida aqui e ninguém entrega isso por simpatia.
O próprio Bukele já passou a visão: o problema nunca foi só o crime fora do Estado, mas sim descobrir o quanto dele já estava instalado por dentro dele.
Guardem essa antes de acreditar que o Estado brasileiro vai se autorregular sozinho. Quem está dentro raramente assina a própria demissão.
É esse o tweet.