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Acabou o Shabat. A vela da havdalá apaga no vinho, a semana recomeça, e cada um volta pro seu lugar no mundo. Repara especialmente num desses que voltam, o judeu de vinte e poucos anos. A gente construiu duas casas enormes pra ele. A escola judaica e a tnuá, que pegam ele menino e formam um líder até mais ou menos os dezoito. E a comunidade adulta, a sinagoga, a família, a federação, que só vai abraçar ele de novo quando casa e tem filho, hoje cada vez mais tarde, lá pros trinta e poucos. Entre uma casa e outra tem um vão. Dos dezoito aos trinta e poucos. Quinze anos, às vezes mais, sem nada construído pra ele. Sai da tnuá, talvez faz um ano fora, volta, entra na faculdade laica, começa a trabalhar. E as primeiras perguntas grandes sobre D’us, sobre Israel, sobre por que continuar sendo isso tudo, chegam todas bem no meio desse intervalo. Que é exatamente quando a comunidade some. Eu chamo esse vão de “A Fenda”. A escola e a tnuá formaram esse jovem pra liderar e depois formaram ele pra fora, sem ter onde colocar. Ele sai grande demais pra voltar de chanich e novo demais pra sentar na mesa dos casados. Aí fica sozinho com o YouTube e o twitter respondendo o que um rav devia estar respondendo, e descobre que ninguém o segura justamente na década em que ele mais precisava ser segurado. Pirke Avot manda cada um fazer pra si um mestre e adquirir pra si um amigo. Aseh lecha rav, kne lecha chaver. E é exatamente quando esse jovem mais precisa de um rav e de um chaver que a comunidade não tem nem um nem outro pra oferecer. Ele ama o judaísmo. Só não acha onde colocar esse amor entre os dezoito e os trinta e poucos. A primeira coisa que eu falei era mudar o que está na cabeça do jovem. Essa segunda é mudar o que existe debaixo dos pés dele. Não se fecha “A Fenda” com mais um sermão nem com mais uma cobrança. Fecha construindo algo que exista exatamente ali, entre a tnuá que acabou e a vida adulta que ainda nem começou. É o que eu tô tentando ajudar a erguer, e disso eu falo outro dia. A havdalá a gente aprendeu a fazer com vela e vinho, separando o Shabat da semana. Com o jovem, ainda falta aprender a mesma coisa, a não deixar ele cair no escuro toda vez que a semana recomeça. E olha que esse jovem ainda é o melhor caso. Ele tem um pé dentro. Passou pela escola judaica, pela tnuá, cresceu com Shabat em casa, e mesmo assim a gente perde ele na Fenda. Agora pensa nos filhos dos que a gente já perdeu. Esses não passam por escola judaica, não entram numa tnuá, não pisam numa sinagoga. Eles nem chegam na borda da Fenda. Já nasceram do outro lado. Temos muito trabalho pela frente.

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