Hesitei em me manifestar publicamente diante dessa tragédia que se impôs na Cidade de Deus. A tragédia tem outros termos: assassinato, racismo, preconceito, aporofobia...
Hesitei diante da possibilidade de ser interpretado como um oportunista e aproveitador do barbárie.
Hesitei, também, por ocasião de ser taxado de covarde ou omisso.
E a vida exige da gente coragem. E nós temos coragem pra acordar, ir à batalha todos os dias e encarar todos os desafios que se impõe em nosso cotidiano.
Na coragem que encarei o ônibus pra vender doce, sinal pra vender água, até me tornar Secretário Municipal da Juventude, me manifesto sobre a morte do Thiago.
Sou Gestor Público de formação e profissão. Eu resido na Cidade de Deus, para ser mais exato na Travessa Mesopotâmia.
Tento a duras críticas, e com esforços, implementar projetos e iniciativas para jovens. E no meio do caminho vejo adolescentes que ainda não atingiram a idade de juventude serem executados.
Interrompi o silêncio e venci as hesitações, para ser uníssono aos moradores que exigem das autoridades estaduais uma resposta sobre o ocorrido.
Em outras áreas da cidade, não identificadas como favelas, morros ou subúrbios, não se tem o histórico de ações tão hostis como a que ocorreu aqui na CDD no último domingo.
O caso do Thiago exige coragem das autoridades públicas para se explicarem, apresentarem seus pedidos de desculpas e para assumirem compromissos que evitem cenas repetidas como essas.
Eu, repito, sou morador da Cidade de Deus. Exijo respeito aos meus vizinhos e todos os moradores que aqui residem. Respeito em forma de pedido de desculpas. Respeito em forma de compromisso com a vida do jovem favelado. Respeito ao cargo que ocupa.
Nós, gestores públicos, estimulamos sonhos, criamos oportunidades, alimentamos esperanças e efetivamos a dignidade de todo cidadão. Não somos operadores do caos.
Meu silêncio não vai falar mais alto que a dor dos familiares vitimados por essa tragédia.
E que o silêncio das autoridades responsáveis, cesse, e se transforme em barulho de esperança, dignidade e solidariedade.
Sob a esperança dos meus pais, que torcem para eu não morrer de bala perdida e conseguir realizar meus sonhos, é que escrevo.
Forças,
Salvino Oliveira.
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