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izzynobre
Um dos meus ratinhos morreu, o Casquinha. É o segundo a morrer. E novamente, foi o meu favorito, o que interagia mais comigo, e o que eu treinava. É exatamente como todos dizem: são adoráveis, dóceis, não fazem barulho, a sujeira é bem limitada à gaiola e não tem cheiro forte, são inteligentes, reconhecem o dono, fazem truques... ...seriam os bichinhos perfeitos se não tivessem uma vida tão curta. Minha namorada falava que ele "piava". Nem todo ratinho faz muitas vocalizações, mas ele sim, e eu ria sempre porque nao é tão comum rato ser "falador assim", como ela descrevia o Casquinha. Ela (que já teve rato antes) me alertou desde o começo que esse é justamente o problema. Eles tem jeitinhos mto bonitinhos, meio antropomórficos as vezes (já os viu segurando a comida? As vezes parece até que tem polegar opositor, de tão semelhante a gente ele é). Ele é mto interativo. Os meus ficam mexendo na minha barba (eles tem instinto de cuidar uns dos outros assim). Vem pra beiradinha da gaiola quando eu entro no quarto, lambem meus dedos. Esse tipo de coisa. Eles sao naturalmente dóceis assim. Entao isso faz vc se afeiçoar MTO por eles. É um mini-mamífero que por acaso é um parente bem distante de nós, símios. Compartilhamos um tatatatataravô algumas dezenas de milhões de anos atrás. Assim que os dinossauros morreram esses nossos antepassados em comum herdaram a terra e por causa disso eu e você estamos aqui hoje. Como não gostar desses bichos? *** O diretor-podcaster Kevin Smith ficou completamente destruído quando um dos seus cachorros morreu (os cachorros dele eram personagens nas histórias do podcast dele) Nerdao, ele tem o habito de buscar inspiração, filosofia e referências morais do mundo da fantasia e da ficção pra ajudar a compreender e processar. E nesse processo de compartilhar o luto dele, ele mencionou um insight (não sei se dele ou de algum lugar que ele estava só citando) de que pro ponto de vista de cachorros, nós somos como os elfos. Pra eles, nós temos uma vida incompreensivelmente longa. 7 ou 8 vezes mais longa. Por isso, vc pode ver a vida inteira de um animal, enquanto a recíproca tipicamente nao é verdadeira. E como qlq relacionamento de companheirismo entre elfos e humanos, isso significa que essa relação significa que há praticamente uma garantia de que o elfo vai ver o parceiro humano morrer. Ele elabora que um homem humano poderia amar uma elfa a vida dele inteira, mas a elfa SEMPRE vai ter que lidar não só com a morte dele, mas com uma sequencia interminavel de parceiros mortos. Pq se gosta de humano a ponto de encarar o tabu, é provavel que isso a atrairá pra outro humano de novo em algum momento. Essa distincao entre uma criatura com vida mto longa sendo repetidamente amaldiçoado a experimentar a morte de um companheiro que vive mto menos me veio a mente hj qnd encontrei o corpinho rígido do Casquinha caído de lado. Vc sabe que estao morto imediatamente só de bater o olho. a posicao das patas é estranha. nao parece o jeito como geralmente se ajeitam pra dormir. Voltando à metáfora de elfos e humanos do Kevin Smith pra contextualizar a "amizade" entre um ser humano e seu pet No caso de humano e ratinho, a escala é ainda mais brutal. Se tu cria cachorro, você tem uns bons 12, 13 anos com ele. Gato vive ainda mais. Mas ratinhos, pela natureza social (pro bem estar deles é melhor ter um par ou um trio), tu vai ve-los morrendo todo ano, possivelmente múltiplas vezes por ano. É só um ratinho, mas se vc é o tipo de pessoa que se apega a esse bichinho, é mto triste ve-lo morto. Eu nunca tive morte de pet qnd criança, o que talvez tivesse me preparado melhor para navegar a maré psicológica desse tipo de coisa. Minha primeira morte impactante foi logo do meu pai, de ataque cardíaco súbito, o que é pesado demais pra ser a primeira morte próxima. vc fica mto bitolado com a ideia de que a morte pode vir sempre assim, do absoluto nada. É o motivo pelo qual incentivei minha namorada a vender a moto dela. Qnd eu tive que ir pro Canadá qnd meu pai morreu, eu fiquei completamente insano da cabeça achando que ela ia morrer num acidente de moto e eu nao ia nem saber. Eu obviamente não comparando a morte do meu pai com a morte de um rato (pq eu já consigo prever alguém dizendo isso?). O que tô querendo contextualizar é que o problema de criar rato é que, se vc já teve uma morte recente na família que bugou mto a cabeça, esse lembrete de que vc pode simplesmente perder certas presenças da sua vida permanentemente e do nada é realmente brutal. Kevin Smith bateu nessa tecla tanto que eu lembro até hoje. Ele insistia nesse insight: quao triste é que eles podem passar a vida deles INTEIRA com vc, mas vc nao pode te-los a sua vida inteira. *** e se vc quiser realmente se impressionar com a capacidade humana de sentir a morte de um ser vivo, assiste esse vídeo e depois vê os comentários. www.youtube.com/watch repare no efeito que esse vídeo tem nas pessoas. Reflita sobre isso.

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