O Brasil acaba de ganhar seu primeiro Oscar por um filme extremamente relevante, que trata indiretamente sobre o assassinato brutal de um ex-deputado, perpetrado por um regime de exceção que recém tentou voltar ao poder em nosso país.
De forma esculachada ou não, há pouco mais de dois anos militares e simpatizantes da ditadura colocaram em prática um plano para voltar aos tempos sombrios em que pegava-se um pai de família de dentro da sua casa, tinha-se a audácia de levá-lo a uma delegacia, torturá-lo para que revelasse nomes de supostos "comunistas traidores da Pátria", que é como eles chamavam as pessoas que apenas tentavam viabilizar a volta da democracia ao país, para depois matá-las de forma covarde, sem passar por qualquer julgamento diante de poder constituído legalmente.
As consequências do sumiço do deputado Rubens Paiva foram terríveis para sua família.
Os militares nunca admitiram envolvimento na sua morte, o que legalmente deixou a viúva no limbo, incapaz de tocar os negócios da família ou sequer gerir sua conta bancária. Foram precisos de quase 30 anos para que ela pudesse recuperar a vida administrativa e financeira da família. Os restos de seu marido nunca foram recuperados.
Com a vitória no Oscar, o mundo inteiro agora pode conhecer a história de dona Eunice. De alguma forma, quem viveu os "anos de chumbo", como é chamado aquele período, consegue se reconhecer no filme. Porque ele conta a história de uma família como tantas que viveram o regime militar, em que você nunca sabia como ia acabar a história se fosse parado na rua por uma viatura da Rádio Patrulha.
Ao contrário do que dá a entender o caos atual, a democracia não foi à falência. Por um motivo simples. É que ela ainda permanece sendo o único sistema razoável para se viver em sociedade, o "menos ruim".
O problema é que para funcionar, ela precisa ser podada, regada e nutrida todo santo dia. Porque suas raízes são frágeis, uma vez que ela depende de credibilidade, sabedoria, do profissionalismo e da boa intenção dos representantes do povo, de um povo politizado e conhecedor do que acontece nos corredores do poder, que sabe o funcionamento do sistema, suas leis, e que confia nesse sistema, nas suas eleições e nas informações que recebe de fontes fidedignas, isentas e profissionais de imprensa.
Sair da noite de hoje, como saíram VÁRIOS comentaristas escalados pelos meios de comunicação, lamentando o Oscar para Fernanda Torres, é de uma estupidez tão retumbantemente vira-lata que me dói a alma.
O Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para "Ainda Estou Aqui" é uma premiação histórica, uma grande derrota sofrida hoje pela extrema-direita que trama contra a democracia dia e noite neste país.
Devemos estar exultantes, jubilosos e extremamente agradecidos a Waltinho Salles, Fernanda Torres, Selton Mello, Marcelo Rubens Paiva e toda sua família.
Mas, sobretudo, devemos começar a ter respeito pela memória de Rubens Paiva e todos os desaparecidos durante a ditadura militar e começar a transformar todas as delegacias que serviram como locais de tortura em terra sacra de visitação pública, para que as pessoas saibam o que ocorreu lá dentro. Viva Eunice Paiva! Viva a democracia brasileira!
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