Hoje, o acordo União Europeia–Mercosul dá mais um passo para ser destravado, depois de mais de duas décadas de negociação. O debate que fazemos sobre ele não pode ser raso: trata-se de decidir qual lugar o Brasil e a América Latina vão ocupar na economia mundial.
De cara, fica claro o risco de repetir, em versão “moderna”, a lógica do pacto colonial: exportar produtos primários e importar manufaturados, num comércio desenhado para maximizar o ganho do norte global e limitar a autonomia produtiva da periferia. Historicamente, esse tipo de arranjo nunca foi bom para quem está do lado de cá.
O acordo organiza a dependência por contrato: reforça uma divisão internacional do trabalho em que nós fornecemos commodities e recursos naturais, enquanto a Europa concentra indústria, tecnologia, padrões e poder de decisão. E isso tem um custo socioambiental direto: ele favorece o grande agronegócio e tende a aumentar a pressão sobre a expansão da fronteira agrícola, elevando riscos de desmatamento, conflitos territoriais e perdas para os biomas brasileiros e para povos e comunidades tradicionais.
E é importante explicitar o método: o que avança com pressa é a parte comercial, a que interessa ao capital. A própria dinâmica de ratificação na Europa abre espaço para “fatiar” o acordo, acelerando o pilar de comércio, enquanto a parte política e de cooperação, onde ficam muitas condicionalidades e salvaguardas, enfrenta mais resistência e pode exigir unanimidade como acordo de associação. Em outras palavras, ao mercado, urgência; ao direitos humanos e meio ambiente sobrou o “na volta a gente compra”.
Ao mesmo tempo, há benefícios potenciais: redução de tarifas e facilitação de comércio em itens como remédios, peças automotivas, equipamentos industriais e insumos químicos, além do objetivo brasileiro de diversificar exportações e não depender tanto de vender “quase tudo” para China ou EUA. Em tese, isso poderia reduzir vulnerabilidades e dar mais previsibilidade diante de instabilidades geopolíticas.
O ponto decisivo é: diversificar e baratear importações pode ser positivo, mas, na forma como o acordo está sendo conduzido, isso vai significar a permanência do Brasil no papel de exportador de baixo valor agregado. Sem salvaguardas reais e sem submeter o acordo a regras efetivas de transição produtiva e ecológica, um possível ganho de curto prazo vai se transformar em mais um ciclo longo de dependência e em mais pressão rumo ao colapso ecológico.
Thread
Nenhum Voo ainda